Monday, February 4, 2008

A Dor Fantasma

Ó Manuel (a minha mãe pronunciava sempre todas as sílabas do meu nome) está ali uma senhora que quer falar contigo.
Eu fui de canadianas até à sala e a senhora levantou-se e desatou a pedir desculpas numa torrente de palavras que não me dava hipótese de falar.
- E o meu home' chama-me tola, aquele bêbado diz qu' isto é maluqueira minha. E mostrou a mão a que faltava o polegar. – Qu' eu não devia vir incomodá-lo. Mas disseram-me q' o senhor tinha ficado sem uma perna em África e eu tinha que vir cá. Não estou nada maluca 'tão não?
Ainda o pó não tinha assentado bem na picada, e o Lemos para o enfermeiro Costa: – Eu sinto as minhas pernas… eu não fiquei sem as pernas, pois não, Costa? E nós a segurarmos o soluço na garganta.
Ainda nesse mesmo dia, no Hospital do mato em Mueda, o cirurgião, num exercício didáctico de psicoterapia, a explicar-me a mim que o que eu sentia era psicológico, que o fenómeno se devia ao facto de o amputado não aceitar a mutilação e isso gerar alucinações, induzindo na imaginação a presença do membro perdido. Que a dor que eu sentia era um sonho, era o desejo da preservação da integridade anatómica do corpo. E o cabo enfermeiro: - Ó furriel, isso são só as dores fantasmas, 'tá pe'ceber?
- É assim como se tirássemos daí essa cama, 'tá pe'ceber? Depois carregávamos na pêra e lá dentro tocava à mesma a campainha a dizer “cama 6”. 'Tá pe'ceber?
Ali, na sala, sentada à minha frente, a senhora de olhos muito abertos, brilhantes de alegria. Eu a comparar o polegar que lhe faltava com a cama do hospital do mato e ela sem perceber nada, só dizia: -Obrigado. Obrigado. Obrigado. E a minha mãe de olhos comovidos a segurar o soluço na garganta.

Todos os amputados sabem que não é um distúrbio psicológico. De facto o nosso cérebro é enganado pela alteração anatómica do corpo, dado que continua a receber, através do sistema nervoso residual aquilo que este está programado para lhe transmitir após um traumatismo brutal como aquele: dor. Tal e qual como a luz que se acendia no hospital de Mueda a dizer "cama 6. Tirassem ou não tirassem aquela cama, diria sempre "cama 6", e para nós o pé também continuava ali, invisível, a doer,
O Luciano, no Anexo do Hospital Militar em Lisboa, tinha uma explicação mais transcendente. Sentir a perna amputada era a prova evidente que tínhamos uma alma. Uma parte do corpo tinha desaparecido, mas nós sentíamos o pé na mesma porque, como não tínhamos morrido, a alma continuava íntegra, com pé e tudo.
Eu, no meu insensível sarcasmo de ateu, costumava adoptar esta explicação do Luciano, por me parecer a mais poética, e explicava às pessoas que me viam caminhar de uma forma quase escorreita, que tudo se devia ao facto de a parte da alma correspondente à perna se encontrar agora dentro da prótese, tornando-a aos olhos de deus, tão humana como qualquer criatura divina. E a minha mãe, mortificada de temor cristão segurava mais uma vez o soluço na garganta.
Muitos soluços teve a minha mãe que segurar na garganta desde aquela noite fria de inverno em que me viu partir de fardeta verde no corpo e boina basca de fitas a esvoaçar ao vento, como dois longos lenços, um verde, outro vermelho, a despedirem-se dela; até ao dia em que me viu chegar de canadianas e com a perneira das calças vazia. Segurava o soluço, abafava a dor, calava a desgraça, para que a minha avó, na sua cândida senilidade, não sofresse também, desnecessariamente.
Quando se fala da guerra colonial, poucas vezes se fala da outra guerra; a outra guerra travada sem tréguas, nas aldeias e nos campos, pelas mães portuguesas; impotentes, sem amparo nem consolo de uma pátria que pouco lhes dava e as deixava assim a sofrer, à distância de meio mundo dessa parte de si mesmas que lhes havia amputado; carne da sua carne, sangue do seu sangue, e já agora, alma da sua alma.
As mães portuguesas também sabem que é possível sentir a dor de algo que nos é arrancado e que persiste para além do corpo, para além da vista, para além do entendimento; não como um distúrbio psíquico, não como um truque de electricidade, não como uma metafórica extensão da alma; nem sequer essa dor que o nosso sistema nervoso persiste em manter real apesar de o órgão que dói já não existir; mas uma outra dor, que uma vida inteira não sei se terá dado para nos ajudar a perceber, e que agora felizmente, em tempo de paz, só com um exercício de imaginação conseguimos conceber. Essa dor que só uma mulher podia sentir, por saber que o ser que se gerou do seu ser, no único milagre possível, o improvável milagre da vida; disputava, em paragens cuja distância não entendia, o jogo mais radical e definitivo e se entregava ao ritual mais macabro e obsceno, de braço dado com a Morte. Essa dor de sentir a dor de quem se ama, não como alguém que nos pertence, mas como alguém que emana de nós, que só o mistério dos afectos maternos mais uterinamente íntimos mantém a latejar, apesar da distância, apesar do silêncio, apesar da ignorância. Essa fantasmática dor, como um flamejante e indestrutível cordão umbilical.

3 comments:

José Sande said...

Meu caro Manuel Bastos,

apenas uma curta mensagem, com um forte abraço, para lhe vir agradecer o mais uma vez relembrar essa outra guerra colonial e os seus protagonistas, muito em especial a Mulher, como Mãe, mas também como esposa e companheira, a quem ainda não foi prestada a merecida homenagem nacional.
José Sande

antónio said...

Caríssimo Manuel Bastos:
Mais uma vez me espanto com os seus "contos" arrancados à vida, vivos e mais informativos do que muitos registos históricos. E uma vez mais lhe recomendo: edite-os em livro. Bem precisados estamos que alguém publique trabalhos sérios como este sobre a guerra!
Aceite o meu abraço.
amp

agostinho rocha said...

Caro Manuel Bastos

Que o seu relato sirva a todos aqueles como Sr.Ataide e Abreu vejam
que as Histórias da n/guerra são contadas com H e não com E.
Servi no Niassa-Moçambique, mas nunca
saboreei o ar condicionada de Nampula ou até de Lourenço Marques.
Também as NT tiveram exitos é verdade, mas também Wiriamu