Sunday, November 1, 2009

A Visita


Sei que estás a pensar "Ó Zé, cala-te", mas temos tempo de ficar calados; é preciso dizermos alguma coisa para termos a certeza que ainda andamos por aqui. Sabes lá a falta que me faz ouvir-te cantar. Tu cantavas muito bem Etelvina; eu às vezes queria acompanhar-te, mas começava a desafinar e tu rias-te de mim, e eu ficava sem jeito. Depois deixaste de cantar. Se vinhas a cantar na rua, calavas-te mal entravas em casa… Não faças essa cara, pronto, não falo mais nisso.
Parecem boas as maçãs que me trouxeste. Preferia flores. Sim, eu sei, nunca dei valor às tuas flores, mas aqui não há flores, aqui falta um bocado de cor às coisas. E a cor faz-me falta.
Olho para trás e parece-me que a minha vida foi quase toda a preto-e-branco. No baile da Mamarrosa tu olhavas para o chão quando eu olhava para ti, e eu não tinha coragem para te convidar. Eu tinha as mãos cozidas com o cimento das obras, encortiçadas pelo trabalho, e ele tinha mãos de quem não fazia nada; quando tiravas os olhos do chão, Etelvina, era para ele que olhavas, e quando olhavas para ele o teu rosto mudava como uma janela onde bate o sol. Às vezes também olhavas para mim, mas quando olhavas para mim, nada no teu rosto mudava. Eu não tinha luz suficiente para te iluminar Etelvina. Parece-me que vivi sempre à sombra até te ver sorrir.
Porque será que um dia sorriste para mim, Etelvina? Porque foi que um dia os teus olhos pousaram em mim um foco de luz? Nesse dia descobri que o mundo era a cores.
Agora a cor faz-me falta. O médico perguntou-me "O que é que o amigo Sousa sente?" e eu: Sinto falta de cor. E ele ficou a olhar para mim como se eu tivesse um tomate esborrachado na testa.
Ao princípio parecia um rato a roer-me a alma, depois o rato transformou-se num cão danado sempre a roer-me a alma. E eu a ficar vazio por dentro, à medida que ele me comia a alma. Agora já não sinto a falta da alma; os remédios encheram o espaço vazio como se eu fosse um boneco de trapos; mas falta-me a cor. Traz-me flores Etelvina. Quando voltares a visitar-me traz-me flores. Mas as maçãs parecem boas.
Em África lembrava-me bem das tuas canções e ouvia-te cantar na minha cabeça. Foi isso que me valeu na guerra, as canções que tu cantavas dentro da minha cabeça. Agora já não me lembro. Será que um dia eras capaz de cantar para mim?
Que estás a ver? Aí da janela só se vêem os telhados da enfermaria das mulheres, não há nada pra ver. Às vezes fico aí horas a fio como tu estás agora, e de vez em quando passa uma ave. Quando isso acontece só não fico feliz porque já não me lembro como é. Mas alguma coisa muda cá dentro quando passa uma ave.
Sinto tanta solidão Etelvina. A maior solidão não é quando sentimos falta dos nossos entes queridos, dos nossos amigos, dos outros; mas quando sentimos falta de nós; quando deixamos de saber de nós. Se ao menos tivesse a memória de uma bela história de amor para me fazer companhia, mas a nossa história parece ter sido feita de coisas que não aconteceram Etelvina. Devia ter emigrado contigo como tu querias, em vez de ir para a guerra, devíamos ter ido à procura de uma história para nós; devíamos ter feito, ao menos, uma grande viagem.
Ah, que é isso? Não fiques assim. Aqui é proibido andar triste. Vem logo alguém perguntar se tomámos os remédios, e se não nos pomos com boa cara reforçam-nos a dose não tarda nada.
Mas o pior é a falta de cor. As pessoas não têm cor, as paredes não têm cor, a comida não tem cor.
Mas de resto estou bem. Sabes, até estou bem demais. Não me dói nada. Nada me incomoda. Faz-me falta ter alguma coisa, mesmo que fosse má. Uma dor, ou assim. Quando me sentia só, em África, eu ferrava as unhas na pele para ter a certeza que ainda estava vivo, agora parece que é proibido sofrer, e dão-me remédios para eu não sentir nada. É por isso que passo aí horas esquecidas à espera que passe uma ave. É que me tiraram tudo, Etelvina. Agora tiraram-me até a dor. Faz-me falta ao menos um pequeno desconforto. Será que seria muito pedir um pouco de chuva a cair-me no rosto?
Mas o médico acha que vai ser difícil os gajos lá em cima acreditarem que isto começou em África. O pior é para ti, sempre era uma ajuda, que o teu patrão, à medida que envelheceste, deixou de te aumentar. Ah, não olhes para mim assim, que eu sempre soube e não te levo a mal. Sabes lá o que um homem guarda cá dentro quando tem um espaço vazio no lugar da alma. Quando um homem aprende a aceitar a morte como uma coisa sem importância.
Mortes sem importância. Como espantalhos caídos no capim. Era como se nunca tivessem vivido. E eles não acreditam que isto começou em África.
É um crime tirarem um homem do lugar onde vive e atirarem-no para o fundo do porão de um navio e mandarem-no para a matança como um porco. E o lugar onde eu vivia eras tu Etelvina. Lembro-me do teu corpo como um lugar aonde podia regressar no fim do dia. Olhava nos teus olhos, Etelvina, e sentia que tinha chegado ao meu destino.
O furriel dizia que se eu soubesse escrever era um poeta. Nunca percebi se era a gozar comigo. Mas percebo que quando deixei esta terra para ir para a guerra deixei o teu corpo desabitado e um homem não pode nunca deixar o seu lugar desabitado, nunca deve abandonar a sua casa, e tu eras a casa onde eu queria viver Etelvina.
Às vezes chegava um aerograma teu e eu ficava feliz. Nessa altura ainda me lembrava como era ser feliz. Era como ver todas as aves do céu; era como sentir a alma de todas as cores. E o furriel dizia-me "Ó Sousa, hoje estás de alma lavada". Mas à medida que o tempo foi passando a alma foi-me ficando encardida.
Eu sei que isto começou em África, porque uma ocasião olhei para um aerograma teu e reparei que as tuas palavras não tinham cor nenhuma, pareciam escritas com cinza. Nesse dia não consegui ouvir-te cantar dentro da minha cabeça. Foi a partir daí que alguma coisa cá dentro me começou a comer a alma.
Quando eu fui embora, o meu pai com vergonha de estar a chorar. A minha mãe a dizer "Meu filho. Meu filho. Meu filho", e tu a olhares para o chão como no baile da Mamarrosa.
Eu podia ter fugido pra França como o meu primo, mas eu pensei: seja o que deus quiser, eu sou um paz d'alma que não faço mal a uma mosca, mas vou cumprir a minha obrigação. Maldita a hora, aquilo era porrada de criar bicho e eu queria voltar a ver-te Etelvina, por isso fiz tudo para sobreviver.
Mas sobreviver a uma guerra não é grande coisa, Etelvina. Quando os mortos não têm importância de que vale sobreviver? Além disso, Etelvina, eu não sobrevivi completamente, alguma coisa minha lá morreu.
Quando voltei, o meu pai envergonhado das lágrimas novamente. A minha mãe novamente a dizer "Meu filho" vezes sem conta, e tu novamente sem conseguires olhar nos meus olhos, como no baile da Mamarrosa. E eu olhava para vocês e pensava que ainda não tinha acabado de chegar, que uma parte de mim tinha ficado para trás, muito, muito para trás.
Ainda se ao menos nos ensinassem a ser civis de novo, como nos ensinaram a ser soldados, mas não. Durante meses e meses eu continuei a ser apenas um soldado no meio dos patos e das galinhas. Um soldado que tinha perdido a arma algures. Acreditas que sentia falta da arma? Quando se anda na guerra, Etelvina é preciso mais tempo para conseguir trazer a alma toda de volta.
E depois, quando voltei, nunca mais te ouvi cantar para mim, Etelvina. Se vinhas a cantar na rua, calavas-te mal entravas em casa. Eu sei, eu sei; não é fácil viver com um homem que vai ficando oco por dentro.
Esse telhado é como um espelho, Etelvina, olho-o e vejo o vazio que vai dentro de mim. Mas quando tenho sorte, passa uma ave e fico um nadinha mais perto da felicidade.
Deve estar a passar o efeito dos remédios. Daqui a nada vem o enfermeiro e o vazio logo desaparece, e depois vou ficar atafulhado com um monte de farrapos cá dentro.
Onde estás? Já foste embora? Ah Etelvina… Ia jurar que tinhas vindo visitar-me e que me tinhas trazido maçãs. Se ao menos me escrevesses um aerograma. Pareciam boas, as maçãs.
Mas traz-me antes flores Etelvina.
Trazes?

Tuesday, September 29, 2009

A Persistência da Dor

No chão da gare da Curia a minha sombra imita um flamingo enquanto eu me equilibro pondo a perna amputada sobre a canadiana, de modo a usar ambas as mãos para acender o cigarro.
As pessoas passam por mim e abrandam a voz como se faz quando somos surpreendidos a meio de uma conversa por uma visão inesperada.
Algumas a olharem para trás, depois de passarem.
Uma folha d' O Século que o vento não consegue descolar do chão. Levanta-lhe uma ponta, fá-la ondular mas ela não sai dali. E, vinda não sei de onde, uma canção dos Procol Harum: Saltitávamos o alegre fandango, Fazíamos cabriolas pelo chão; Eu sentia-me um pouco enjoado Mas as pessoas pediam mais…
O vento a brincar com o jornal. Uma velhinha a descer da carruagem. As pessoas impacientes à espera que ela desimpeça o caminho. E a canção com sonoridades barrocas e letra psicadélica: Quando a moleira contou a sua história O rosto dela, a princípio só assombrado, Ficou branco como a cal da parede…
A velhinha a aproximar-se de mim olhando para a minha mochila no chão como quem vem em meu auxílio, e eu, num movimento que lhe deve ter parecido acrobático, rodo sobre o único pé, pego com ambas as mãos na mochila, as canadianas presas aos braços pelos apoios, volto a rodar em sentido contrário, e depois de encaixar a mochila às costas passo por ela sem pudor, ignorando a crueldade da minha exibição. Olho para trás e vejo-a tristíssima a ver-me a afastar, andando duas vezes mais rápido do que ela. Daria decerto uma perna para ter a minha idade e o meu vigor. Abrandei a marcha envergonhado, como se por andar mais lentamente agora, eu pudesse diminuir o meu sentimento de culpa.
Cá fora já não resta nenhum táxi, e eu volto a entrar no átrio da estação para procurar um banco. E a velhinha passa por mim. Os nossos olhares cruzam-se por instantes, e ela sorri-me com a doce complacência dos que já viram de tudo na vida, o que aumenta o meu remorso.
Só encontro onde sentar-me na gare.
Há luz demais, tenho que semicerrar os olhos para ver para além da sombra. A folha de jornal, ao longe, inundada de luz, como uma foto tirada em sobreexposição.
A folha a fazer negaças ao vento.
A música a arremedar uma suite de Bach, os versos delirantes: Por entre as cartas de jogar Indaguei se não seria Uma das dezasseis virgens vestais Que se dirigiam para a costa E embora tivesse os olhos abertos Bem os podia ter fechados.
A música repetitiva, que afinal sai pelas frinchas de uma porta a dizer "Chefe da Estação", começa a fazer-me sono, e uma sensação de desamparo toma conta de mim.
Parece que iniciei aqui uma viagem à volta do mundo, que fui apanhando coisas pelo caminho até constituir um enorme património, que depois, por cansaço e preguiça, por descuido e negligência, fui perdendo a pouco e pouco, e que agora, aqui de novo, terminada a viagem, disso nada resta, para além de algumas esparsas memórias. Memórias de alegrias amargas e perigos letais reduzidas a algumas imagens dispersas. Memórias de amigos e inimigos de que acabarei por me esquecer completamente.
Tenho que me por de pé para não adormecer.
De Santa Apolónia até aqui também fiz de tudo para não cair no sono, dado que sou perito em não acertar com a estação onde quero sair. Já fui parar sem querer a Campanhã, e depois, tomado o comboio em sentido contrário, fui ter à Mealhada, quando o meu destino era o quartel de Paramos, mais ou menos a meio caminho.
Assim, fiz de tudo para me manter acordado, mas os meus olhos acabavam sempre por descaírem mortiços para o meu sapato, solitário entre as duas canadianas, que parecia ter qualquer poder hipnótico. E lá fora a paisagem numa vertigem.
– Se olhares para as botas com atenção o comboio pára.
– A sério avô?
Desde a minha infância a ilusão egocêntrica da biqueira do meu sapato a parar o comboio e a fazer a paisagem correr para trás. Se existissem comboios no tempo de Galileu talvez ele não tivesse sido humilhado pelos sinistros juízes da Inquisição, e talvez lhes tivesse sugerido que dessem mais atenção às biqueiras das botas do que à inspiração divina, pois que mais vale encontrar as soluções para os problemas transcendentes nas coisas insignificantes, do que justificar até as coisas mais insignificantes com a transcendência.
Depois, finalmente, a paisagem da torre da capela de Aguim com o Buçaco ao fundo como um rosto familiar, a dizerem-me que cheguei finalmente a casa.
Que longas que são as viagens que têm uma guerra pelo meio.
A torre da capela de Aguim apareceu ao longe na paisagem como um embuçado em pleno dia, e ao fundo o dorso da Serra do Buçaco tão esbatido que mal se distinguia do céu. Se fosse eu a pintar aquele quadro, punha um pouco mais de terra-de-sena para que um tom quase imperceptível de púrpura criasse a ilusão da distância; assim parecia que estava tudo no mesmo plano, e a torre branca da capela da N.ª Sr.ª do Ó parecia pintada sobre um papel de cenário.
Agora estamos finalmente sós na gare da estação da Curia: eu à espera que venha um táxi, e a folha de jornal que o vento não consegue tirar dali.
Então, repentinamente, um comboio passa sem parar. Os rostos a repetirem-se janela após janela como numa fita de um filme. Um ribombar contínuo de mil marretas em mil bigornas, que estilhaça o silêncio e bloqueia a atenção, fazendo ignorar tudo o resto. Um pânico repentino alvoroçando a folha do jornal atirada brutalmente contra o tecto da gare.

Por fim, fica apenas a aragem revolta e o silêncio. Mas dentro de mim permanece o eco, ou a memória do som como um desassossego da alma, tal como a dor permanece para além da bofetada.
Sim, toda a dor sobrevive muito tempo ao golpe. Mesmo quando se fecham as feridas; mesmo quando o riso regressa aos rostos; mesmo quando um sorriso sábio e complacente nos redime do nosso cruel egocentrismo; mesmo quando regressamos finalmente a casa e deixamos uma guerra longínqua para trás.
E a folha de jornal inquieta ainda, já o comboio vai longe…

Monday, July 20, 2009

A Enfermeira que Vinha do Céu


Se o comboio avança em direcção à Gare do Oriente porque me dá a ideia que recuo no tempo? Daqui a pouco uma mulher por entre a multidão avançará para mim empunhando a boina verde de uma farda há muito desmobilizada, distintivo, noutro tempo, de uma tropa de elite, identificação hoje para um encontro agendado.
Todo o encontro cria uma ruptura. O que era até ali deixará de o ser como era. Passamos às vezes por uma pessoa na rua e tudo muda na nossa vida. Alguém que nos diz bom-dia de uma forma diferente, ou nos dá um sorriso, ou nos olha com um brilho de inteligência no olhar e nos garante que o Universo é habitado. Nunca agradecemos a uma pessoa assim que muda a nossa vida. Ela esfuma-se no tempo. Afunda-se na vida. Perde-se no labirinto do mundo.
Se voltamos a passar por ela nem a reconheceremos. Ela apenas passou por nós, porém, ao passar por nós fez-nos desviar a atenção, iluminou com um relance do seu olhar um pensamento sombrio, e esse seu pequeno impacto fez-nos atrasar o minuto fatal em que iríamos cometer um erro irremissível; desviou a nossa trajectória o suficiente para salvar o nosso dia.
E se uma pessoa assim tiver interferido na trajectória da nossa vida de uma forma consciente e calculada por ter imposto a si mesma esse dever, quando tudo o mais à sua volta se resumia à primária luta da sobrevivência? Uma pessoa cujo impacto na nossa vida nos desviou da trajectória da própria morte.

Eu daqui a pouco a descer pelas escadas rolantes, e o ribombar dos comboios por cima de mim. E a ideia que recuo no tempo. E a certeza que vou encontrar no piso inferior uma longa fila de veículos militares.
E eu, eu fora de mim, imaginando-me no lugar do piloto do helicóptero a calcular o espaço entre os ramos das árvores para aterrar na picada, e a ver um soldado prostrado com as marcas da explosão a irradiar do seu corpo.
Eu agora a olhar para cima com os olhos do enfermeiro Costa. Corajosamente desarmado, segurando o saco do soro e olhando para o céu em busca do socorro.
Eu agora envergando a T-shirt branca e sentindo o coração ansioso da enfermeira no meu peito. Eu ansioso por chegar, ansioso por me antecipar à Morte.
Eu agora no meu próprio corpo, deitado de costas no chão a ver chegar a enfermeira correndo para mim.
Eu com frio.
Tanto sol e eu com frio.
Tanto frio.

Entretanto voltei: o presente impõe-se à memória e traz-me as linhas geométricas da cidade vistas da janela do comboio. Se foi Deus que fez o mundo, não criou uma única linha recta, uma só curva perfeita, ofereceu-nos o caos, e nós vamos destruindo essa aconchegante liberdade com a árida prepotência da geometria. Ou então são saudades de África.
Imagino a Gare do Oriente, onde o comboio vai parar dentro de minutos, que tantas vezes achei uma arrojada criação fitomórfica a quebrar a inorgânica monotonia urbana, e que agora antecipo como um desenho repetitivo, reduzido ao arremedo simétrico de um bosque. São saudades de África: dorme-se uma noite na desordem corajosa da mata eterna, e aprende-se a desprezar a fútil esquadria dos jardins, a domesticada ordenação da arquitectura urbana.
Quem nos vir daqui a pouco, frente a frente, eu e a enfermeira pára-quedista à mesa de um restaurante, jamais imaginará que o que nos separa não será o tampo da mesa, serão 37 anos de vida e uma guerra. A mesma guerra que fez com que as trajectórias das nossas duas vidas se encontrassem.
Há, evidentemente, alguns factores que reduzem o grau de imprevisibilidade desse nosso primeiro encontro; mas neste momento, quando o comboio já está quase parado na plataforma de embarque da Gare do Oriente, só consigo pensar que foram precisos largos séculos de história colonial e duas trajectórias erráticas, como erráticas são sempre as trajectórias dos seres humanos, para nos encontrarmos no preciso lugar onde uma mina anti-pessoal terrestre aguardava há alguns dias pela minha bota esquerda. E isso é algo que transcende o meu poder de cálculo de probabilidades.
E onde aconteceu tudo isso? Numa picada perdida do norte de Moçambique ou num lugar recôndito da minha imaginação?
Eu com frio e o sorriso cálido da enfermeira. Eu na solidão absoluta perante a Morte e um sorriso que me garantia mais do que a certeza de que o Universo era habitado. A certeza que, mesmo quando tudo parece ter descido ao mais baixo patamar da humanidade, a esperança pode ser-nos trazida por um cândido sorriso de mulher.
E o Alfa parou.
Não sei em que ano parou. Não sei em que mundo.
Vou sair por aquela porta para a plataforma de embarque com a convicção de que a realidade não me será suficiente. Mas a realidade nunca é suficiente: é para isso que há sonho, música e poesia.
Era uma vez uma guerra.
Era uma vez uma enfermeira que vinha do céu.
Ela chegava e a esperança de vida aumentava.
Vinha do céu
e pousava de helicóptero
com subtilezas de anjo.
Ultrapassava a Morte
e levava-nos
num abraço de Pietá.
Amava-nos sem saber
a enfermeira da T-shirt branca.


A Grande Prostituta pairava sempre sobre nós, e quando tombávamos ajoelhava-se para nos invaginar. Às vezes o enfermeiro Costa tentando a ternura: - Não me morras filho da puta! E quando a vida não era mais do que um fio, ansiávamos que a salvação viesse do céu.
E vinha!
Vinha de T-shirt branca e levava com ela os nossos camaradas feridos, e durante uns breves minutos o terror dava lugar a uma leve sensação de doçura.
E era então que me apetecia chorar; que um homem até aguenta a dor e o medo da morte mas não resiste à generosidade de uma mulher.
Levou o Lemos, levou o Raimundo, levou-me a mim. E um dia, quando parecia que tudo o que passei na guerra se tinha desvanecido para sempre, dei por mim a desenhá-la com palavras, como personagem de um livro. Com palavras que trouxe a vida inteira comigo.
Hoje a mulher por detrás da personagem ocupará o seu lugar aferindo a ficção pela realidade, deixará de ser uma silhueta desvanecida de uma foto antiga no heliporto de Mueda, a personagem construída a partir da fantasia literária e das memórias difusas de um velho soldado, a personagem que um leitor do livro levou a sério e procurou no labirinto do mundo até a encontrar.
Sairá hoje das páginas do livro para falar com o autor.
E o Alfa parou.
- Olá Piedade!
- Olá Manuel!

Tuesday, April 28, 2009

A Estrada

Virou-se para trás como se alguém a tivesse chamado, e fitou a estrada a afunilar até desaparecer numa curva distante entre pinheiros.
Virou-se para trás como se o caminho que levasse não levasse a lugar algum.
Virou-se para trás como se não houvesse esperança alguma à sua frente.
Se ao menos pudesse sentar-se para ganhar ânimo, mas a estrada era como a sua vida: vinha de algures para além de uma curva e seguia em frente até outra curva, sem nada pelo meio.
E a estrada deserta. E o corpo sem ânimo como se tivesse acabado ali algo de fundamental e irrecuperável.
Do lado esquerdo o terreno subia, subia, até completar a Serra do Buçaco, para o lado direito o terreno descia, descia, até se confundir todo por entre os campos e as aldeias, sem ordem nenhuma nem beleza. E ali, como um risco feito com um pau na terra, estava a estrada, como se a sua única função fosse dividir o mundo ao meio sem levar a lado nenhum. E a meio caminho entre as duas curvas, estava ela.
Houve um tempo em que aquela estrada a faria sonhar, quando o seu corpo era todo ele harmonia, e o simples desnudamento do arco ogival de um seio fazia com que os homens nele convergissem o olhar como se fosse uma luz que se tivesse acendido de repente.
Foi num momento assim que ele veio todo sem jeito, atraído pela réstia do seu seio, enquanto no coreto os músicos se esforçavam por tocarem todos a mesma música, e todos ao mesmo tempo.
Um dia, algures por ali, entre o desalinho complicado das aldeias e o cume simples da Serra, ela acendera-lhe de novo um seio, e depois encandeara-o com a luminosa nudez do seu corpo.
Nenhum homem sabe como é forte o corpo de uma mulher, como é enganadora a sua aparente fragilidade. Ele desfizera-se da roupa atabalhoadamente, afogueado de paixão, investindo sobre ela com gestos toscos de varrasco, resfolegando como um minotauro tresloucado pelas hormonas, e ela acolhera-o suavemente como a capa do toureiro acolhe as pontas erectas de um touro enraivecido; uma e outra vez, uma e outra vez. Nenhum homem sabe como é sábia a aparente complacência e submissão de uma mulher, que acaba sempre por dominar o mar revolto que há no desejo do macho, até ele se esvair em espuma, desfeito e exausto, arfando indefeso sobre a praia morna do seu corpo. Nesse dia ele passou a pertencer-lhe.
Os olhos ainda colados na curva da estrada atrás de si pareciam medir a distância já percorrida, ou mais que a distância: o tempo. Não há maior ilusão do que a de pensarmos que o tempo passa. A vida é uma estrada como esta, parada entre o vale e a montanha e nós é que vamos caminhando de curva em curva até nos consumirmos e ficarmos assim a olhar para a última curva lá atrás, como se pudéssemos viajar no próprio olhar para o passado.
Há quanto tempo ela o fizera seu, ali naquela mata? Há uma eternidade. Há quanto tempo, algum tempo depois, o vira partir de farda verde sujo e mochila às costas para uma guerra que ela nem sabia que existia? Ontem? Porque será que as coisas más que recorda lhe parecem próximas, e as boas distantes?
Nenhum homem sabe a guerra que uma mulher trava sozinha sem armas nem defesas, enquanto os homens, que nunca deixam totalmente de ser crianças, se entregam estupidamente à mais infantil e cruel das brincadeiras, que é a de se tentarem matar uns aos outros por motivos que julgam elevados e por objectivos que consideram honrosos.

O pior que acontece com os nossos sentimentos é não sabermos se devemos amar ou odiar. O pior ainda, é quando sentimos o amor e o ódio pela mesma pessoa. Jamais o amor se lhe apagaria da alma por aquele que um dia ali se atirou a ela como predador e acabou prostrado no seu corpo como presa. Jamais o ódio, por ter sido duas vezes traída por ele, se desvaneceu. Uma primeira vez, na distante tarde de Outono em que se foi afastando por aquela estrada até ter desaparecido naquela mesma curva ao fundo, com aquele ar de guerreiro garboso que parte à aventura pelo mundo fora e a deixava a ela ali, como uma sombra no meio da estrada, como uma peça de roupa de todos os dias que se despe para envergar a sinistra roupagem de matar, aquela farda da hedionda cor do esterco. Agora, olhando a mesma curva da estrada lá longe, parece que nunca saiu daqui onde está, durante estes anos todos, como um envelhecido Narciso a mirar a ilusão de uma juventude irremediavelmente perdida. Mas a pior traição foi a segunda, a traição de ter-se ele deixado morrer por lá.
Um amor sem história, o dela. Ele levou a sua história na mochila por aquela estrada fora e por lá ficou; nem os seus ossos, essa pátria por quem foi lutar, lhe devolvera. O corpo dele ficou por lá sem uma praia morna onde pudesse reanimar, e o seu corpo ficou aberto como um golpe de navalha que não cicatrizou nunca.
Muitas vezes acendera ainda a curva orgulhosa do seu seio, muitas vezes iluminara de nudez o seu corpo todo, muitas vezes transformara predadores em presas, mas jamais conseguira fechar aquele golpe aberto desde o dia em que o vira desaparecer naquela curva, de mochila ao ombro sem uma só vez olhar para trás.
E a flecha do arco de ogiva perfeita dos seus seios foi rebaixando a pouco e pouco até eles perderem toda a altivez das catedrais góticas e se acomodarem na forma modesta e acabrunhada do arco abatido dos templos românicos, à medida que a luminosidade do seu corpo se embotava sem mais fulgor que a palidez de uma lua triste.
Levou uma eternidade a retirar os olhos da curva da estrada e a voltar-se para a frente, para a outra curva ainda distante, e sentiu sem sombra de dúvida que nunca haveria de dobrar mais aquela curva da estrada. O seu corpo fechara-se finalmente. A guerra que ela soube que existia quando sentiu o golpe de navalha do abandono, há muito que terminara, mas a guerra que travara desde então, durava até hoje, muitos e muitos anos depois. Porém o seu corpo parecia ter finalmente deixado de lutar.
Que nos perdoem as mulheres se não tivemos coragem. Mas que o seu perdão não se esqueça dos que tivemos coragem, e não usámos a coragem para lutar apenas por elas. Tanta mulher como praias ansiosas pelo mar da nossa bravura e os homens distraídos com guerras!
E ela parada. E a estrada deserta. A estrada entre duas curvas: o passado perdido e o futuro inatingível.
O coração tão sereno e a doce vertigem de quem vai adormecer.O seu corpo caiu em combate, vítima de uma guerra em que não combateu. O seu corpo, como uma praia morna e luminosa que foi, vai agora perdendo toda a luz, e a pouco e pouco vai arrefecendo.
E a pouco e pouco vai arrefecendo.

Friday, January 23, 2009

A Doença da Memória

Para os lados do mar o céu desenha uns fiapos cinzentos por entre os tons ainda quentes do pôr-do-sol, e ele vira-se como se estivesse interessado em aproveitar os últimos alentos de vida da tarde, mas estou em crer que foi um acto reflexo, como se respondesse a um chamamento.
A tarde morre em silêncio, mas o silêncio tinha uma voz. O silêncio tinha a voz do mar. Mas ele ouvia o silêncio por baixo dessa voz. Uma voz fragorosa e depois fervilhante; uma voz materna, que primeiro ralha e depois arrulha. Mas por baixo do silêncio feito dos sons, de todos os sons que povoam a vida, e que não ouvimos porque estamos entretidos a viver, existe o vazio. Ele está a ouvir esse vazio por baixo da vida. O silêncio da própria alma, como um buraco negro numa toalha branca, como um nódoa de morte caído no tecido da vida.
Levanta-se e caminha um pouco, olhando sempre para o lado do mar. Há muito que aprendeu a enfrentar esse chamamento sem voz. Chamamento não, talvez uma atracção, uma tentação; como um poço fundo a fazer vertigens.
Sente as mãos vazias, como se tivesse deixado cair uma ferramenta que agora lhe faz falta. Inúteis, as mãos, balançam ao lado do corpo e os olhos sempre olhando o mar. Sempre, sempre olhando o mar.
Um avião passa rasante junto à rebentação, encaminhando-se para a base de S. Jacinto, e o farol da Barra de Aveiro atira-lhe com um disparo de luz; depois risca a tarde num movimento circular como quem desvia o olhar embaraçado por aquele disparo inútil.

Ele encontra-se agora no chão do passeio, as mãos procurando a arma perdida, rolando sobre si próprio. O buraco de silêncio enche-se de gritos, de explosões e daqueles estalidos que os projécteis fazem quando passam sobre as cabeças dos soldados, mostrando que ainda estamos vivos dado que já passaram quando os ouvimos.
Outro avião, talvez um Fiat a julgar pelo som sibilante da turbina. E ele rasteja sobre a picada procurando camuflar-se atrás do capim. Tragam-me dilagramas que eu rebento com os filhos da puta! Os cartuchos das Kalashes vêm ter acima de mim. Eles devem estar perto… 
O estridular de uma gaivota em busca de poiso para passar a noite torna infrutíferos quaisquer esforços para resistir a uma emboscada, e lentamente os sons vão-se desvanecendo até que finalmente se ouve de novo a voz do mar.
 O sol deixou um rasto acobreado por sobre as águas e tudo começa a tomar os seus lugares, como se tivesse tocado a recolher e a praia toda se preparasse obedientemente para a noite.
Mete o vigésimo cigarro do dia na boca, acende-o e tira uma passa como quem toma um remédio. Olha mais uma vez o mar. Sabe que agora pode olhar o mar sem receio e sente um alívio enorme ao avaliar a imensidão daquela massa de água que o separa do passado. Não será por muito tempo; um dia ou dois, e de novo aquele vazio lhe fará lembrar que algo de si ficou para trás, como o último olhar de terror do inimigo abatido, como o apelo impotente do camarada de armas que não foi possível resgatar das mãos do inimigo. Então retomará a sua missão inacabada, uma e outra vez até que um dia ele próprio seja abatido neste combate sem quartel; por uma bala perdida, por uma mina traiçoeira, ou simplesmente pela vida.
Levaram quase um ano a fazerem dele um combatente, ensinaram-lhe tudo o que um pacato pedreiro precisava de aprender para se tornar alguém capaz de lutar até ao limite. De matar. E depois, no fim, no prazo de uma semana, esperaram que ele deixasse de ser um combatente, e simplesmente esquecesse, como se tudo não tivesse passado de uma brincadeira inofensiva, e voltasse a ser o pacato pedreiro que fora em tempos, como se a memória de um homem fosse um balão; mais fácil de esvaziar do que de encher.
Talvez a mulher tenha razão, talvez o melhor seja aceitar humildemente que está doente. Mas que sabe uma mulher sobre os perigos de uma emboscada, que sabem estes gajos todos aqui do que é ter que vencer o medo e seguir em frente, sempre, sempre em frente?
O farol da Barra, agora, já noite, parece querer desenhar uma circunferência de luz em redor de si mesmo, mas o foco perde-se na noite infinita. A verdade é que tudo sem excepção se perderá na noite infinita; é uma questão de tempo. Caminhamos todos em direcção à escuridão, à escuridão sideral ou à simples escuridão do corpo, a qual é cada vez mais difícil de iluminar de prazer. Como um mar nocturno. À excepção talvez, de algumas praias de ternura, alheias, inocentes, às escarpas cruéis da nossa memória. Como seria bom, ao menos, o riso senil do esquecimento tão próximo da inocência que nos permitisse aceitar a decadência sem luta. Uma tarde soalheira debaixo da sombra maternal de um castanheiro sem idade e ao longe a família feliz no caleidoscópio do sol. Talvez então, sem remorso nem raiva aceitássemos a doce prepotência divina, como uma mentira piedosa.
Talvez valha a pena, então, ser humilde e aceitar que a memória também pode adoecer, que às vezes um homem não pode levar tudo consigo, tal como nem sempre é possível resgatar um camarada de armas das mãos do inimigo.
Olhou o mar, mais uma vez olhou o mar, mas agora com um sereno cansaço, como se tivesse terminado uma longa viagem.
E a voz da mulher doce e terna devolve-lhe o mundo: - Ó Zé; estamos à tua espera para jantar.

Sunday, December 21, 2008

Os Sapatos do Major



Pôr um pé à frente do outro; o resto é milagre. Pouca gente está consciente disto: estar de pé e caminhar é uma coisa prodigiosa, aparentemente improvável; sobretudo se for observada de uma cadeira de rodas. É maravilhosa a estabilidade de uma pessoa a caminhar, sem precisar de efectuar cálculos constantemente; para fazer com que a projecção do seu centro de gravidade caia infalivelmente dentro do imaginário polígono de sustentação de geometria extremamente variável, à medida que caminha. Bastam algumas semanas sem podermos caminhar para recearmos que esse dom nos venha a ser retirado para sempre.
Há muito pouca diferença entre caminhar normalmente e voar, na perspectiva de um paraplégico. Só a consciência disso me permitia aceitar o sorriso condescendente das senhoras do Movimento Nacional Feminino que me tratavam como um privilegiado, por me saberem por pouco tempo confinado às limitações da cadeira de rodas.
As senhoras do Movimento Nacional Feminino achavam que nenhuma desgraça era suficientemente grande para um homem, e que os males que nos corrompiam eram apenas dádivas que devíamos agradecer à Divina Providência. Devíamos agradecer por sermos amputados, pois bem poderíamos ser paraplégicos, e estes deveriam estar gratos por não serem tetraplégicos, porém estes últimos só por uma grande ingratidão não se sentiriam felizes por não terem morrido. Mas não se pense que os mortos estavam livres de demonstrar gratidão, pois que se tinham livrado de uma vida de limitações e sofrimento.
Não sejamos injustos com as senhoras do Movimento Nacional Feminino por elas não entenderem que basta uma erupção de acne na ponta do nariz, para um jovem se sentir um mutilado de guerra; é que elas afinal viviam no mesmo país do que nós, tinham o mesmo governo, liam os mesmos jornais, e não me custa admitir que fossem chamadas a frequentar algum curso de caridade cristã onde tudo se resumisse a convencê-las de que nos deveriam fazer sentir gratos por Deus não ter decidido tirar-nos mais alguma coisa, para além do que a guerra já nos tinha tirado.
Quando me pude pôr de pé, e voltei a ver o mundo olhando por cima da cabeça dos outros, como já me tinha habituado havia muitos anos, começava para mim um novo problema: substituir a perna, que a cobarde mina anti-pessoal me tinha tirado à má fila, por um par de canadianas que prolongavam os meus braços até ao chão e que me transformavam numa periclitante tripeça à beira do colapso.
Há um ditado italiano que diz que não há maior felicidade do que termos companhia no infortúnio; se isso é verdade, devo ter sido muito feliz no Hospital de Lourenço Marques, pois não conheço outro lugar no mundo com tanto perneta para me fazer companhia.
Aos domingos uma parte da população vinha visitar os militares feridos em combate, e procurava saber coisas do Norte; era a parte da população que tinha consciência de que algo estava prestes a mudar. Conheci uma outra parte da população: a que achava que a guerra era uma coisa que se passava no distante Cabo Delgado entre a malta de Lisboa e os pretos; nada que uma matança a sério, e depois um apartheid à portuguesa não resolvesse. E depois… E depois havia as senhoras do Movimento Nacional Feminino. Havia qualquer coisa de patético nas senhoras do Movimento Nacional Feminino; qualquer coisa com sabor àquela doce degradação, só detectável no olhar de paciente mortificação das prostitutas dos bares de má fama da periferia das grandes cidades. Olhavam-nos com a distraída simpatia de quem tem por profissão distribuir calor humano em doses calculadas.
Sinto uma certa relutância em confessá-lo, mas era isso justamente que me fascinava nelas. Imaginava-as chegando a casa, cansadas de terem distribuído simulacros de simpatia, arremedos de afecto e até algum carinho bem imitado, e uma vez chegadas a casa, terem dificuldade em exercer as suas relações íntimas com autenticidade; pois que a alternância entre o afecto profissional e o afecto verdadeiro devia traí-las e fazer com que se confundissem, como acontece decerto com as prostitutas em relação aos utentes dos seus serviços e aos seus amantes verdadeiros. Em momentos de maior pendor para o drama, imaginava-as a entregarem-se à realidade das suas insípidas vidas afectivas em que também não recebiam mais do que esse embuste de sentimentos, das pessoas de quem verdadeiramente gostavam, e apetecia-me pegar-lhes fraternalmente nas mãos, o que imaginava ser o correspondente a beijar uma prostituta; algo que subvertesse a relação profissional e criasse um incontrolável contacto humano.
A esposa do Major era suficientemente feia para garantir que um contacto humano, por mais incontrolável que pudesse ser, não viesse jamais a incendiar tentações; mas era muito carente; tinha uma tal soma de carências por aquele corpo abaixo, que isso não a deixou entender aquele meu gesto romântico. E aqueles segundos em excesso durante os quais a minha mão pegou na dela, e que pretendiam passar por um acto paternalista, com uma dose certa de indulgência machista, tipo Hemingway num bar de prostitutas em Havana, foram tomados como um sinal inequívoco de um macho em ebulição hormonal, atormentado pelo primário instinto de acasalamento.
Por essa altura, eu já via o mundo de novo por cima das cabeças dos outros, embora a minha figura de canadianas se assemelhasse a um orangotango desengonçado que caminhava erecto, mas com a ajuda dos longos braços; e que um pijama curtíssimo, e o cônjuge sobrevivo do meu par de botas da tropa, faziam parecer um orangotango, mas com aptidão para a arte circense.
Enquanto tentava iludir a dança de acasalamento da esposa do Major, convenci o Herculano a levarmos a cabo um peditório para adquirir um par de sapatos; um único par, que nós éramos pernetas simétricos e calçávamos o mesmo número; esforço que ele não compreendia, dado que a esposa do Major repetia amiudadas vezes que me poderia ser mais útil do que eu imaginava.
Ao fim de uma semana já não parecia que houvesse uma alma naquele hospital a quem não tivéssemos pedido pelo menos duas vezes para o par de sapatos e a colecta não chegava nem a metade do necessário. Considerei seriamente a prostituição. Sem um sapato eu não poderia sair do hospital, e a utilidade da esposa do Major era seguramente menor que a minha imaginação.O dia seguinte amanheceu normal, nenhuma alteração climática veio alterar o curso dos acontecimentos, nenhuma notícia sobre a guerra veio interferir no meu estado de espírito, e eu preparei-me para a visita das senhoras do Movimento Nacional Feminino. As senhoras vieram, mas a esposa do Major não veio. Veio o cabo enfermeiro. – Ó Furriel Bastos, o Herculano saiu de fim-de-semana mas pediu-me para lhe dar isto. Uma caixa. Um envelope. Uma mensagem. "Espero que gostes. Felizmente o Major calça o mesmo número que nós. Um abraço. Herculano"

Tuesday, November 25, 2008

A Difícil Transferência do Ódio

Éramos umas crianças. – Disse José da Fonte.
Os soldados são sempre crianças, Bastos, ainda se ao menos os que nos comandavam fossem homens, mas eram crianças como nós. E os que eram homens não iam para o mato. Lá em Mueda conheceste alguém do quadro, que alinhasse nas operações de canhota nas mãos? Profissionais da guerra que nunca deram um tiro e os que foram para lá ao engano é que lhes guardavam o coiro! – Disse José da Fonte.
Está hoje um dia que me faz lembrar aquele céu de África. Trágico, não era? Um céu trágico aquele, em que de repente, do mais puro azul se desembrulhavam prá'li umas nuvens cor de sangue e rebentava uma tempestade dos diabos que nem dava tempo de tirarmos os ponchos, e ficávamos ensopados num instante. Aquilo era difícil, Bastos; também, se fosse fácil não estaríamos lá nós.
O povo e os filhos do povo é que pagam sempre a conta, não tenhas dúvidas, estejamos em guerra ou estejamos apenas a atravessar uma crise qualquer como agora. Quem paga somos sempre nós. E quando o problema acabar, mudam quem manda, criam uma nova ordem social, ou simplesmente mudam os nomes às coisas para darem a ideia que começou um novo jogo e que os que perderam, perderam e os que ganharam, ganharam: é o princípio do oportunismo. – Disse José da Fonte.
Era um tempo impreciso, esse em que vivíamos; o fim de uma época e o início de outra, não tivemos outro remédio senão ir aprendendo à medida que as coisas se revelavam para nós. Ninguém nos ensinou nada, a não ser odiar os que não nos queriam lá. E depois quando descobrimos que os nossos verdadeiros inimigos eram os que nos usavam como carne pra canhão, tivemos que transferir o nosso ódio. Mas o ódio vicia, Bastos, e não há nada mais difícil do que mudar o objecto do nosso ódio; e não há nada menos digno do que matar só pra não morrer. – Disse José da Fonte.
Bebe, pá, que lá não tinhas deste vinho. Um casqueiro com gorgulho e umas bazucas de Cuca e era um pau; e muita camaradagem, não era? Foi isso que fez de nós irmãos. O medo e a coragem; o tédio e a ansiedade; a solidão e a camaradagem – mas tudo intenso e real. Tão intenso e real como um espinho na carne. Olha: no dia em que foste ferido, chorei; escondi-me lá num canto qualquer, fumei um cigarro e dei por mim a chorar. Lembrei-me que tu costumavas dizer que nós nunca choramos os mortos, choramo-nos a nós mesmos, ou porque antecipamos a nossa própria morte, ou porque nos sentimos mais sós. Lembras-te de dizeres isto? Lembrei-me de ti a disparar para o capim, em cima da Berliet, no dia em que um soldado do teu pelotão rebentou uma mina. Lembras-te? Depois escondi-me na cagadeira a fumar um cigarro, para ninguém me ver chorar.
Tu vieste embora e muita coisa se passou depois, mas sempre nós a gramar a pastilha, ainda por cima tivemos um cabrão dum capitão armado em herói que nos punha no mato dia sim, dia sim e que depois se desenfiou para o Comando enquanto nós continuámos lá a garantir-lhe o subsídio de zona de cem-por-cento, que ele ganhava no ar condicionado enquanto nós foçávamos no mato, quando já devíamos ter ido para um lugar mais calmo. Sabes que pensei em dar-lhe uma carga de porrada quando o encontrasse aqui. Mas como dizia Tertuliano, a vingança dá apenas um prazer momentâneo enquanto o perdão dá um prazer duradouro. Perdoei-lhe a carga de porrada mas não esquecerei que alguns morreram para ele ficar bem-visto junto das chefias militares. Ó Bastos, se fosse fácil não era para nós. – Disse José da Fonte.
E agora, tantos anos depois? Até parece que falo com saudades daquilo, não é? Tenho saudades de mim, Bastos, tenho saudades de nós. Quando não acontecia uma desgraça éramos felizes. Tenho saudades de quando a vida era um milagre. Quando chegávamos todos; quando bebíamos um copo de cerveja morna e cantávamos todos desafinados, e então tu, pá, que cantavas mal como a porra; celebrávamos o dia por ele ter acabado com vinte e quatro horas. Para muitos, os dias acabaram a meio e nós ficávamos mais sós, como tu dizias.
Éramos umas crianças e o que fez a guerra de nós? Fez-nos homens? Acho que ficámos sem idade, Bastos. Na guerra os homens ficam sem idade. Crianças envelhecidas ou velhos prematuros. Por isso é que sentíamos a vida como um milagre, porque a vida é precária, Bastos, e nós aprendemos isso antes do tempo. Lá, ao menos, morríamos de coisas simples: um tiro, uma mina, um estilhaço de morteiro. Agora morremos de coisas com nomes complicados: nefropatia túbulo-intersticial, angiossarcoma hepático, ou então que tal uma neoplasia broncopulmonar malígna? Vamo-nos degradando até as pessoas que gostam de nós ansiarem por que os deixemos em paz. A vida não é precária, a vida é altamente improvável. – Disse José da Fonte.
Neoplasia broncopulmonar malígna. Eu acho que devia ter morrido jovem, Bastos, para ser recordado com o desconsolo de me saberem desaparecido com uma vida inacabada; para que sentissem a falta de todas as realizações que ainda esperavam de mim; para que se recusassem a aceitar a minha morte como uma coisa natural e odiassem alguém por eu ter morrido, fosse quem fosse – que arranjassem maneira de encontrar o verdadeiro culpado pela minha morte; ou ao menos, pá, para que uma mulher bela e jovem vivesse chorando com uma foto minha junto ao peito; ou se tudo isso fosse pedir demais, para que sobre a minha sepultura não exibissem para sempre o retrato de um velho decrépito.
Neoplasia broncopulmonar malígna. Um dia destes e muito em breve, Bastos, chegará um dia para mim que não terá vinte e quatro horas. Ninguém ouvirá o estampido de uma mina, ninguém se esquecerá de si mesmo, para gritar: o Zé da Fonte está ferido! Ninguém se atirará para o chão em meu redor para fazer uma barreira de fogo. Nenhum enfermeiro se arriscará corajosamente, vindo a correr desarmado para me tentar salvar a vida. Chegará apenas uma notícia pelo telemóvel a dizer que eu bati as botas e será um alívio para as pessoas que gostam de mim. Será que tu, Bastos, te vais esconder num sítio qualquer a fumar um cigarro, para que não te vejam chorar, porque a minha morte te aterroriza, porque fatalmente um dia será a tua vez? Não, Bastos, deixa-me acreditar que chorarás nesse dia como se eu tivesse tombado em combate, deixa-me acreditar que nesse dia beberás a tua cerveja morna sem cantares com a tua voz esganiçada, porque nesse dia não vieram todos, deixa-me acreditar que sentirás um ódio de morte mesmo que não saibas ao certo por quem, e que te apetecerá saltar para cima de uma Berliet a gritar: Venham cá filhos da puta, enquanto despejas o carregador da G3 no capim.
Bebe mais um copo, Bastos, que deste vinho não tínhamos lá, e deixa-me acreditar que nesse dia chorarás apenas por te sentires mais só.
– Disse José da Fonte, que, do que quer que morra e onde quer que morra, morrerá sempre em combate.