Tuesday, January 8, 2008

Saudade de Azul

O médico pra mim: Ó senhor Sousa, o meu amigo tem que ter coragem.
Que sabe aquele gajo de coragem? E a Etelvina: Ó Zé, no podes pensar assim, no podes pensar assim.
A minha vida parece um dia de chuva na praia e as pessoas só complicam. Eu só lá fui pra pedir uns remediozitos pra dormir e o raio do médico: O Amigo ouve vozes? E eu cá pra mim: Vai-te fornicar, eu ouço o raio que te parta.
Este gajo e a minha mulher fazem-me lembrar o furriel na picada do Chindorilho a agitar a G3 no ar, cheio de cisma, e a mandar a gente avançar debaixo de fogo. E eu cá pra mim: Vai-te fornicar, que eu sou pedreiro, vim prá'qui à força. A verdade é que ele lerpou com uma mina e eu estou inteiro. Durmo mal, mas estou inteiro.

A minha vida parece uma tarde de chuva na praia, a baba da chuva a escorrer na pala da barraca e as gaivotas murchas no areal deserto. E eu sentado a fumar um cigarro e a olhar pra ontem. Às vezes chovia assim em Moçambique mas nós nunca parávamos por causa disso. Porque havia eu de ir embora daqui? – Ó Zé, anda embora que vai chover. E eu cá pra mim: Vai-te fornicar. Que vou eu fazer para casa? Um gajo casa com uma mulher jeitosa e a pouco e pouco ela fica seca como as palhas, e não tarda nada ficamos com a impressão que nos distraímos e casámos com a sogra.
Depois aquele gajo, armado em psiquiatra pergunta-me se ouço vozes. Claro que ouço vozes. Ainda ouço o furriel de G3 no ar: Tá andar! Tá andar! Vamos proteger o enfermeiro. E eu: Vai-te fornicar que eu sou pedreiro, vim prá'qui à força. Depois fiquei a vê-lo de pernas desfeitas no meio da picada e deu-me pena.
Volta e meia a mulher chateia-me, que eu não ando bem e que devia pedir ajuda. Ela quer dizer que eu preciso de ir ao psiquiatra, e eu pra ela: Eu sei bem o que tenho, ou melhor dizendo, o que não tenho, o que perdi. Ninguém me pode dar o que perdi, percebes. - Ó Zé, no podes pensar assim, no podes pensar assim.
Na verdade eu não sei dizer o que perdi. Sei que perdi muito, porque dantes a minha vida era como um dia de praia cheio de sol, com as gaivotas a voar no céu azul cheio de luz. Agora, não sei, talvez seja da idade. Dá-me a ideia que passei toda a minha juventude na guerra. Ao menos o furriel veio sem uma perna mas esteve lá apenas uns três meses, no máximo.
Depois cheguei aqui e o meu pai: Ó Zé, olha que dizem por aí que a Etelvina não te respeitou. Eu devia ter dado de frosques nessa altura mas não tive coragem. "Ó senhor Sousa, o meu amigo tem que ter coragem" como diz o outro. Mas eu fiquei a olhar para ontem e ela parecia-me… sei lá, parecia-me uma gaivota murcha e eu tive pena dela, tal como tive pena do furriel aos gritos no meio da picada do Chindorilho.
Eu sou pedreiro. É o que eu sou. Tal como o meu pai e o meu avô; não nasci pra ser soldado e andar aos tiros, e aquilo mexeu comigo. Mas esta gente não percebe.
Se quero ficar assim sozinho na barraca da praia num dia de chuva, a fumar um cigarrito, o que é que tem demais? As gaivotas murchas, a babugem da chuva na pala, os pingos a fazerem furinhos na areia e o mar bravo, o mar agitado como eu à noite. O mar também nunca dorme. Estou a ver o médico a perguntar-lhe se ouve vozes.
Claro que ouço vozes. Ouço o furriel a dizer: Ó Sousa, tá andar, estás borrado com medo pá. E eu cá pra mim: Vái-te fornicar que eu sou pedreiro como o meu pai e o meu avô, não nasci para andar aos tiros.
A Etelvina ainda voltou a faltar-me ao respeito mais umas quantas vezes; eu sei, porque ela saía de casa de manhã como uma gaivota murcha e chegava à tarde alvoroçada como uma garnisé acabada de galar. Mas isso foi antes de ficar parecida com a minha sogra. Agora já não há problema, agora já ninguém lhe pega. Mas eu deixei de conseguir dormir e só queria um remédio, mas o raio do médico começou a dizer que eu sofria de uma coisa com um nome complicado derivado a ter andado aos tiros em África. Eles acham todos que eu vim de lá cacimbado, traduzindo por miúdos, mas eu quero que eles se forniquem.
Às vezes dou pela Etelvina na cozinha a abanar a cabeça e a olhar para mim quando me sento à frente do microondas para ver o telejornal ou quando tento aquecer a sopa na televisão; mas que tem de mais? Ela tem os dois aparelhos na cozinha ao lado um do outro, e eu sou um bocado distraído, mais nada. Às vezes pego no telecomando para fazer um telefonema ou no telemóvel para mudar de canal mas isso é porque não me dou com estas tecnologias de agora, aquilo para mim é tudo igual, e ela a abanar a cabeça…
- Põe os olhos no nosso Mário, a combater em Timor e sempre tão cheio de coragem. E mostra-me a foto do catraio com aquele nariz curto, tão parecido com o patrão dela. Demasiado parecido com o patrão dela. Eu quero que eles se forniquem todos. A combater, a combater quem? Algum deles alguma vez ouviu uma Kalash, uma costureirinha, um morteiro 122? Eles sabem o que são minas e fornilhos? Está tudo muito certo, sim senhor, mas o catraio foi pra lá por causa do guito e agora esta gaja fala dele como um herói e mostra-me a foto com aquela tromba curta a lembrar-me o amante.
Eu sei poucas coisas é verdade, sou apenas um pedreiro, mal sei escrever e não percebo nada de políticas, mas sei que não é a missão que entregam a um homem que faz dele um herói mas sim a forma como ele se entrega à sua missão. É por isso que às vezes fico assim a olhar pra ontem. É por isso que ainda ouço a voz do furriel na picada a chamar. E o cabo enfermeiro com tanto medo como eu mas a tratar do ferido debaixo de fogo.
E o mar bravo. O mar tão bravo. Sempre inquieto dia e noite. Um mar que ouve vozes como eu. E as gaivotas pousadas, apeadas, no meio do areal ensopado e deserto. Não têm para onde ir como eu. Almas inquietas, corpos murchos. Um dia de chuva cinzento, com saudade de azul.
Como eu.

2 comments:

anónimUM said...

Pró raio que os partam a todos! Governantes, militaristas, psicóilogos e psicanalisnas e outras coisas que andam por aí! Que me deixem em paz. Não me atromentem mais.
Nuno Soares da Silva
(ex-militar na Guiné)

Anonymous said...

Olá Bastos.Excelente,gostei e continuo a gostar dos teus textos.
José Monteiro