Thursday, April 19, 2007

A Doce Ocarina do Vento Norte

Helena sentou-se no murete que divide o cemitério novo do cemitério velho. Chegou tarde, porque teve que assistir a uma reunião e a esta hora já só uma velha ali estava, que varria as folhas dos ciprestes para um lado enquanto o vento as espalhava de novo para o outro.
Inicia o ritual do cigarro, como se cada dedo tivesse um pequeno cérebro autónomo, de modo a levar a cabo aqueles gestos sempre iguais, pela mesma ordem e sem lhes prestar atenção. Primeiro a mão que abre a bolsa de couro e que gatinha por entre os incontáveis objectos que parecem estar ali só para ser mais difícil encontrar alguma coisa; depois as longas unhas a extraírem o cigarro pelo filtro, o qual salta agilmente para a sua posição entre o indicador e o médio, assim que a mão sai da bolsa e corre o fecho, com o polegar e o anelar; ao mesmo tempo os olhos pousam com outro ritmo, com outro vagar, como se não fossem da mesma pessoa que as mãos, em cada pedra de mármore, em cada lápide. A mão deixou o cigarro entre os lábios e já está a procurar o isqueiro por entre o quebra-cabeças do interior do saco; aqui ela repara no contraste que fazem as duas partes do cemitério: a parte velha com as lápides de calcário escurecido pelo tempo, com formas que vão do gótico ao romântico e uma pelo menos, num estilo híbrido de manuelino e arte-nova; e a parte recente do cemitério que exibe a exuberância dos mármores e dos granitos polidos e multicolores, com ornamentos dourados, ao gosto kitsch.

O cigarro já esbraseia ao canto da boca e o isqueiro já esta arrumado. Agora Helena pousa os olhos numa lápide em especial, de granito negro, como se tudo o que fizera até aqui tivesse sido uma encenação ou uma preparação para que o seu olhar não se viesse a distrair com mais nada.
Daqui não se pode ver a foto no medalhão oval, de um rosto masculino, numa coloração errada de excesso de magenta, olhando de frente, com um semblante distorcido de quem tentou um sorriso e quase lhe saiu um esgar de dor; nem o livro em mármore branco com o crachá de uma unidade militar e a frase "Eterna audade" a faltar-lhe o "s" e a inspiração.
A velha passa por ela sempre olhando o chão e murmura um "bô tarde stora" como se estivesse a pedir desculpa por estar ali sem ser convidada.
Helena acompanha-a com o olhar até ao portão e então sente que está só no cemitério. Levanta-se e encaminha-se para a sepultura de granito negro. Agora vê bem a foto com excesso de magenta, olhando para ela de frente e o livro com o crachá. "Eterna audade dos companheiros de Mueda."
Quando o pai morreu Helena sentiu alívio. Mais do que uma vez reparou que a mãe remoçara como se tivesse vivido muito tempo na sombra e de repente tivesse ficado iluminada. E as amigas da mãe, que em vez dos pêsames lhe diziam "Acabou-se a tua penitência".
Se não tivesse sido a isenção de propinas por ser filha de um deficiente militar, Helena dificilmente teria conseguido licenciar-se e a sua gratidão de filha resumira-se a essa constatação, até decidir transformar a campa rasa do pai naquele belo túmulo de granito negro.
A foto com magenta a mais olha-a com aquele sorriso dorido e Helena sente uma enorme pena de não ter sofrido uma única vez com a morte do pai. Queria ter chorado, queria ter passado noites em claro com saudades dele, mas a verdade é que Helena já era órfã antes do pai morrer. Um dia ouviu a mãe dizer entre dentes "Estou casada com um cadáver".
Aquela foi a única foto recente do pai que Helena encontrara. Havia só aquele álbum que ele folheava com desvelo, repleto de fotos da guerra em África. Como era possível que o pai sentisse saudades de um tempo de horrores que lhe roubara tudo? Que procurava ele naquele álbum em que aparecia sempre com um sorriso num rosto de criança? Talvez o rosto de criança, talvez o sorriso. Depois as fotos rareavam e o sorriso nunca mais aparecia. Que terá acontecido para o seu pai se ter transformado naquele homem apagado e taciturno que parecia consumir toda a luz à sua volta, até que um dia se consumiu a si próprio totalmente, não tendo ficado nada a não ser a depressão no sofá onde ele se costumava sentar.
A sua mão esguia levou maquinalmente o cigarro à boca mais uma vez, naquele gesto autónomo, como se a mão não estivesse ligada ao sistema nervoso central e depois num movimento lento e planante, esticando o indicador, roçou ao de leve no medalhão oval. Se não fosse dar-se o caso de o dia ir avançado e o vento norte imitar uma ocarina nos ciprestes, Helena diria que o arrepio que sentiu pelo corpo todo era de ternura.
Às vezes é preciso fazermos com os afectos o que os camponeses fazem com as plantas: é preciso plantar os afectos; é preciso plantar, regar, podar, para depois colher; ou simplesmente transformar uma campa rasa num túmulo do mais belo granito que se puder encontrar.
Deu um passo atrás para ter uma visão mais abrangente da campa e pela primeira vez sentiu saudade do pai. Uma dor constritiva como uma angina de peito provocou-lhe um soluço e os olhos humedeceram de ternura, ou então era o frio, frio vento norte que ainda se ouvia cantando docemente por entre os ciprestes.

2 comments:

José Sande said...

Meu caro mcbastos,
um grande abraço!
E o meu “bem haja!” por, terminado o ciclo dos episódios dos que combateram e sofreram na frente, iniciar com este magnífico texto não só "o reconhecimento e o agradecimento por uma enorme coragem e um extraordinário espírito que foram esteio e suporte que nos permitiram ser o que fomos, e ainda somos" (*) quanto ao que foi uma extraordinária rectaguarda familiar, como também pelo enaltecimento do que foram, e ainda são, esses outros grandes, ainda que quase sempre ignorados, combatentes/heróis, os familiares mais próximos, com grande destaque para a Mulher, esposa e Mãe, em angústia e sofrimento muito para além do "temporal" do serviço militar e das comissões.
Que a sua escrita seja mais uma forte denúncia do abandono a que foram votadas estas também vítimas da guerra colonial.
José Sande (CCaç. 2655)
(*) transcrição de uma proposta já de 2001 sobre a edificação de um "Monumento à Família", ainda por concretizar!

Manuel Bastos said...

José Sande,
A guerra nunca acaba quando é disparado o último tiro. Quando os combatentes regressam, começam outras batalhas. Se a Guerra colonial foi uma guerra de homens, que as mulheres nos perdoem, já que sem dispararem um tiro, foram as primeiras vítimas quando, enquanto mães, nos viram partir e continuaram a ser vítimas como mulheres e como filhas. Para que os nossos familiares que nos sobreviverem não venham a ser as últimas vítimas da Guerra Colonial muitas décadas depois, acho que ainda podemos fazer alguma coisa. Sei que o José Sande faz parte daqueles ex-combatentes que não se limitou a reivindicar o que lhe tenha sido imediatamente útil e é por isso que a sua opinião é autorizada e é por isso também, que o seu comentário é pedagógico.
Um abraço