<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-5691625468132851547</id><updated>2012-01-15T09:18:32.175-08:00</updated><category term='Aguim'/><category term='Stress Pós traumático'/><category term='Moçambique'/><category term='Movimento Nacional Feminino'/><category term='Regresso a Casa'/><category term='Nazaré'/><category term='Guerra'/><category term='Mulheres e a Guerra'/><category term='Curia'/><category term='Guerra Colonial'/><category term='Efermeiras Pára-quedistas'/><title type='text'>Cacimbo - Episódios do Pós-guerra</title><subtitle type='html'></subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://episodiosdopos-guerra.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5691625468132851547/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://episodiosdopos-guerra.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>Manuel Bastos</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08931715969785497183</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/_HoddYLLd75o/TGVwNwmn4aI/AAAAAAAAAiU/KQqkluN1xbw/S220/PhotoContact3.jpg'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>15</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5691625468132851547.post-1487851831625127259</id><published>2010-03-15T11:33:00.000-07:00</published><updated>2010-03-15T11:37:43.832-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Mulheres e a Guerra'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Aguim'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Guerra Colonial'/><title type='text'>O Contágio da Felicidade</title><content type='html'>&lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt;Quando chegou ao Sobreirinho, em vez de endireitar para o arraial da Nossa Senhora do Ó, meteu-se como quem vai para o Peneireiro, e eu ainda disse desconfiada: “Para onde me levas Mário?” mas ele, nada; respirava muito depressa, a modos que com raiva, e metia as mudanças sempre a arranhar como se não soubesse conduzir; quase bateu no portão da Quinta do Tanque. Acho que bateu. Ao depois tirou-me do carro à força com cara de poucos amigos como quem me queria bater. Percebi logo o que ia acontecer e fiquei sem pinta de sangue. Ainda tentei fugir mas estava sem acção nenhuma, com as pernas bambas. Foi tão rápido. A minha cara na chapa do carro, a chapa a queimar-me, o cheiro a gasolina, e ele: “Quieta!”.&lt;br /&gt;Ele a resfolegar como um cavalo na minha nuca, e o meu corpo a aceitá-lo dentro de mim. Era como se eu fosse duas. Uma em pânico a querer gritar de horror e a outra em delírio a querer gritar de gozo. Mas eu ferrava os dentes no braço para não fazer barulho porque do outro lado do muro passava gente.&lt;br /&gt;O corpo não nos pertence, se pertencesse eu teria esperneado, gritado, mas não, só a minha cara a avançar e a recuar na chapa quente do carro e a dor e o gozo ao mesmo tempo, que Deus me perdoe se peco, mas era como se ele me estivesse a esventrar, salvo seja, e isso fosse bom. O meu corpo fugiu-me, deixou de ser meu. Porque é que Deus me fez assim? Porque não tive forças para resistir? Quando ele acabou de se servir de mim eu já não me tinha de pé, e escorreguei até cair de joelhos à frente do carro, toda esmolambada. Em pouco tempo fiquei um nojo. Num minuto deu cabo do que eu levei uma hora a arranjar para ir para o trabalho já preparada para a festa.&lt;br /&gt;Ele com as calças arreadas, nos artelhos, como se tivesse ido à sanita e não encontrasse o papel higiénico. Ao depois a urinar num arbusto, a sacudir-se e a arrumar aquilo atirando o traseiro para traz. Que asco! Que ódio! Eu só disse: “Leva-me para casa.” Ele passou a mão na porta de trás do carro à procura da esmurradela e rosnou “Que chatice!” Acendeu um cigarro e tirou-me dali já a saber conduzir, já a respirar devagar, já sorridente; embora sebento de suor, com as mãos a deixarem marcas em tudo o que tocava. Ao passo que eu me sentia desfeiteada, porca, com um corpo que ainda não me parecia meu.&lt;br /&gt;O pior era no dia seguinte no emprego, como é que eu ia encarar aquele varrasco?&lt;br /&gt;Logo no primeiro dia de trabalho eu vi que ia ter problemas com ele. Um olhar doentio, sempre a pôr defeitos em tudo o que eu fazia, só para eu ter que lhe pedir ajuda. Mas eu não nasci ontem, sei muito bem como me defender, e não era um cavalo como ele que me ia levar à certa, desdemente que eu não lhe desse lugar a ousios. Além disso o Adelino era filho do patrão, e ele não se esticava muito. Mas na Segunda-feira da Senhor do Ó ele esperou por mim lá dentro, e apareceu à porta como quem não quer a coisa, a dizer que ia à festa em Aguim e tal. Eu achei normal e aceitei a boleia, mas ia desconfiada; mal ele começou a ficar nervoso, eu achei que estava em perigo e fiquei para morrer – meu dito meu feito.&lt;br /&gt;Maldita a hora.&lt;br /&gt;O Adelino, que ficou de me ir buscar, mas que para mal dos meus pecados nunca tem horas para nada – sempre foi assim – deixou-me ali especada; e eu, cansada de estar à espera, caí na esparrela.&lt;br /&gt;Como é que eu ia encarar aquele animal na Terça-feira? Ele sabia que eu tive prazer. Se calhar não foi uma violação porque eu tive prazer. Mas só Deus e eu é que sabemos que eu não queria ser abusada por aquela besta, mas ele sabe que eu gozei como uma égua no cio, e isso é que me atormenta. Violou-me sim, foi como se me tivesse injectado à força uma droga no corpo que me fez perder a cabeça. Ele violou-me a dobrar: violou o meu corpo com a força bruta e a minha vontade com o prazer, e eu fiquei num farrapo, desonrada na carne e no orgulho.&lt;br /&gt;Como eu nunca mais lhe olhei para as fuças, ele um dia destes no trabalho todo daimoso: "Em acabando isso vem falar comigo que te enganaste nesta venda-a-dinheiro." E eu: "Se tens alguma reclamação, fala com o patrão." E aquele javardo ao depois passou por mim e resmordeu: "Tu és boa é a encher pipas ao alto." Aquele untuoso, aquele filho duma cadela, que Deus me perdoe, que a Ti Adelaide que Deus tem era uma santa.&lt;br /&gt;Acho que não devia estar a escrever estas coisas no meu diário, alguém pode um dia ler isto, e de mais a mais, agora o que eu faço de melhor é pôr tudo para trás das costas, que remédio.&lt;br /&gt;Eu queria esquecer tudo o que se passou mas parece-me que toda a gente sabe. Em primeiro achei que ninguém sabia mas ao depois fiquei desconfiada que ele se gabou aos amigos do copo, que parece que têm visco no olhar e estão sempre na caçoada quando passam por mim e que até parece que me comem com os olhos. Aqueles moinantes hão-de futurar lindas coisas a meu respeito. Um botou-me uns olhos manhosos e disse para eu ouvir: “Será q’anda esponque?” Que ele é um bêbado sempiterno, um boca de favas que não dá uma para caixa; que o que ele queria dizer era "suponha que", que é como se diz pranha em Aguim. Aquele labrego. Para salvação da minha alma eu andava prevenida, senão tinha-me desgraçado.&lt;br /&gt;Ainda se se dissesse: Ah, ela tinha falta de sexo e queria era deboche, mas não, eu namorava com o Adelino e tinha tudo o que queria dele; fui é apanhada de surpresa no meu ponto fraco. Mas não é o ponto fraco de todas as mulheres? Mas sabe Deus e eu em como eu antes preferia morrer do que ter prazer, só nojo e dor; que ainda sinto raiva por ter deixado perceber que gozei com as brutidades daquele porco roncolho, mas as forças foram-se-me não sei para onde, e eu fiquei de joelhos a ganir sem fôlego à frente do carro.&lt;br /&gt;Na Terça e na Quarta fiquei em casa, mas na Quinta voltei à festa e foi nesse dia que reparei no Zé. Aqueles olhos ternurentos postos em mim, e eu deixei-me sorrir para ele – que ainda estou para saber porquê.&lt;br /&gt;O Adelino a atazanar-me a paciência e eu a dizer-lhe: "Deslarga-me, vai fazer companhia àquela delambida com quem estiveste na Segunda-feira, e eu à tua espera." Ele a desfazer-se em desculpas e eu cá para mim: "Está bem deixa, daqui não levas mais nada." Que eu até andei embeiçada com ele, e ó mais, nunca me faltou com nada, e até é filho do patrão e tudo, mas não é homem de uma mulher só.&lt;br /&gt;E fui-me achegando para o Zé, um passinho de cada vez. E ele a ficar corado, sem saber onde por as mãos, mas a dar passinhos no meu endireito também. Quando estávamos ao lado um do outro, ele para mim: "Está uma noite primorosa." Ó meu Deus, onde vai ele buscar aquelas palavras?&lt;br /&gt;Mas eu senti uma alegria dentro de mim como se me tivessem dado uma prenda, um ramo de flores; nem sei explicar bem. O tratos que ele não deve ter dado à cabeça para se sair com aquela palavra ali do pé para a mão, só para me impressionar, e eu disse-lhe: "Está uma noite linda para começar um romance."&lt;br /&gt;E assim Deus me dê saúde em como aquela noite foi a primeira noite do nosso romance.&lt;br /&gt;Olhei para ele e perguntei-lhe se queria dançar comigo. Ele ficou tão atarantado que me apeteceu rir. Pegava na minha mão com as pontas dos dedos como se tivesse medo de me magoar, então eu agarrei a mão dele com a minha mão toda, e ele todo envergonhado. Envergonhado só por pegar na minha mão.&lt;br /&gt;Fui-me encostando a ele devagarinho para não o assustar, e ele tão feliz, tão feliz, que até parece que me pegou a felicidade.&lt;br /&gt;Aquela foi mesmo a primeira noite do nosso romance. Que o que eu senti, tive logo a certeza que era amor.&lt;br /&gt;Amor é quando a felicidade se pega.&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5691625468132851547-1487851831625127259?l=episodiosdopos-guerra.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://episodiosdopos-guerra.blogspot.com/feeds/1487851831625127259/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5691625468132851547&amp;postID=1487851831625127259' title='2 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5691625468132851547/posts/default/1487851831625127259'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5691625468132851547/posts/default/1487851831625127259'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://episodiosdopos-guerra.blogspot.com/2010/03/o-contagio-da-felicidade.html' title='O Contágio da Felicidade'/><author><name>Manuel Bastos</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08931715969785497183</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/_HoddYLLd75o/TGVwNwmn4aI/AAAAAAAAAiU/KQqkluN1xbw/S220/PhotoContact3.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5691625468132851547.post-7982297836050556413</id><published>2009-12-07T08:10:00.000-08:00</published><updated>2009-12-07T08:20:44.782-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Mulheres e a Guerra'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Stress Pós traumático'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Guerra Colonial'/><title type='text'>O Inconveniente da Inteligência</title><content type='html'>&lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt;Sofia é uma mulher feliz. Olha-se ao espelho. O cabelo em desalinho. Deixa cair na cama de novo, o corpo ainda dormente de prazer. O chuveiro na casa de banho imita a chuva de verão na varanda, e Sofia deixa os pensamentos soltos fluírem à toa, como fotografias atiradas à sorte para cima de uma mesa.&lt;br /&gt;O homem que toma banho em silêncio, só o fervilhar do chuveiro a competir com a chuva, penetra na sua vida quase só tangencialmente, como uma flecha de luz que a ilumina e aquece mas que continua o seu percurso deixando-a sempre como estava antes de chegar. As vidas de ambos têm muitos momentos de contacto como este, mas não se fundem uma na outra, são a água e o azeite, eternos símbolos das uniões imperfeitas, mas se isso às vezes lhe deixa um travo de incompletude, outras vezes como agora, dá-lhe um perverso prazer. Ele vai sair primeiro, ela depois, como se não tivessem nada em comum. É esse ludíbrio que faz desta sua relação um segredo delicioso. Apenas uma sombra cúmplice atrás da cortina de renda do segundo esquerdo. Depois a cortina ondula e a sombra desaparece.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_HoddYLLd75o/Sx0qHausmeI/AAAAAAAAAfk/c7vay9g0Im4/s1600-h/garage-window-curtains.jpg"&gt;&lt;img style="WIDTH: 225px; HEIGHT: 254px; CURSOR: hand" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5412528634091837922" border="0" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/_HoddYLLd75o/Sx0qHausmeI/AAAAAAAAAfk/c7vay9g0Im4/s400/garage-window-curtains.jpg" /&gt;&lt;/a&gt; &lt;div&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt;Sofia é uma mulher feliz. Ouve o chuveiro ao despique com a chuva lá fora, como que a prolongar as ondas de choque do seu encontro secreto; pensa no movimento conivente da cortina da vizinha e sente-se a viver a trama de um romance.&lt;br /&gt;Sofia gosta de verbalizar as coisas. – O cérebro é o nosso órgão erógeno por excelência.&lt;br /&gt;Ele acha que não. – As emoções não são para racionalizar, ser-se demasiado assertivo com os sentimentos torna-os meros jogos de conveniência, e pode transformá-los em cinismo.&lt;br /&gt;Sofia sabe tirar prazer desta relação clandestina, é como beber água com sede, água que caia da própria fonte na sua boca e que ao bebê-la passe a fazer parte de si. Mas mais ainda do que o sexo, que mistura apenas os seus dois corpos, ela sente que o diálogo, olhos nos olhos, é que os aproxima da solvência completa, pondo em palavras explícitas o que o nublado dos sentimentos deixa apenas sentir.&lt;br /&gt;– É preciso falar o amor, dizê-lo, para que o amor deixe de ser um mero acto mecânico. E ao fazê-lo conseguimos que a nossa nudez deixe de ser apenas superficial e o prazer da nossa entrega englobará todo o nosso ser.&lt;br /&gt;– A nudez completa mata o mistério, Sofia, e o conhecimento total do outro anula o prazer da descoberta, e é disso que se alimenta a paixão. E depois, tem que haver sempre uma reserva de intimidade para preservarmos a nossa individualidade.&lt;br /&gt;Mas Sofia precisa dessa partilha íntima para tornar substantiva aquela relação tão efémera. Existe em especial uma área obscura em que jamais conseguiu insinuar-se para além da superfície. Como se despertasse uma dor incógnita. Uma dor clandestina.&lt;br /&gt;– Como foi isso?&lt;br /&gt;– Isso, o quê?&lt;br /&gt;– Isso da tua perna. – E o olhar dele a responder com o silêncio. Levanta o olhar, desvia-o para qualquer coisa, ou na falta de um objecto, olha para o infinito, e com um sorriso nervoso faz-lhe entender que aquela é uma área de total insolvência, um assunto que cai na reserva da intimidade individual.&lt;br /&gt;– Isto é uma medalha de guerra, mas se não te importas não falemos disso agora.&lt;br /&gt;Hoje parece demorar mais no chuveiro do que habitualmente; é sinal que o encontro lhe deu mais prazer, que não tem pressa. Hoje vai parar um pouco junto dela antes de sair. E os pensamentos dela como fotos atiradas à sorte para cima de uma mesa.&lt;br /&gt;Naquela tarde de um outro verão, ele a aproximar-se rua acima, com aquele andar de animal ferido, fazendo esforços para ter um porte digno, e Sofia a imaginá-lo tombado algures em África, de arma na mão, arrastando-se ferido sobre o pó de uma picada num acto de bravura, desesperado e dramático.&lt;br /&gt;Algum tempo depois, a nudez do seu corpo exibindo as marcas desses tempos violentos. Como se fosse um atestado da sua condição de macho dominante. E ela a sua fêmea natural, acima de qualquer convenção social, conhecedora da cartografia íntima dessas marcas secretas.&lt;br /&gt;– Como foi isso?&lt;br /&gt;– Isso, o quê?&lt;br /&gt;– Isso da tua perna. – E o olhar dele em busca de um objecto onde pudesse pendurar-se.&lt;br /&gt;Ela deixa-o sempre tomar banho primeiro, gosta de ficar deitada sentindo o corpo abandonado à lassidão que se segue ao prazer que ele lhe dá, como um prado que conserva o calor de um dia de verão quando a tarde já arrefece.&lt;br /&gt;Ele sai da casa-de-banho já vestido. Senta-se a seu lado.&lt;br /&gt;– Gosto de te ver assim, ainda suada.&lt;br /&gt;– Gostas? É porque a sensualidade é feita de desequilíbrios.&lt;br /&gt;– Ai é?&lt;br /&gt;Ela sente que pode conduzir o diálogo de modo a voltar ao assunto sem ele o perceber antecipadamente.&lt;br /&gt;– Sim. É como na Dinâmica. Se algo se encontra demasiado estável não se moverá.&lt;br /&gt;– Estou a ver. – Disse ele só por simpatia, meio distraído, sem perceber a relação.&lt;br /&gt;– Com a Estética é a mesma coisa, tem que haver algo desequilibrado, assimétrico; uma linha a mais, ou a menos, uma cor que destoe, um som que arrisque a afinação, uma palavra que desafie a gramática; ou tudo não passará de um exercício sem emoção.&lt;br /&gt;– Estou a ver. – Ele, agora surpreendido com tanta eloquência por um motivo tão banal.&lt;br /&gt;– Por exemplo, um rosto muito simétrico pode ser agradável mas ganha logo em sensualidade se essa harmonia excessiva for desequilibrada por um simples sinal ou cicatriz.&lt;br /&gt;Fez-se um pequeno silêncio, e a palavra cicatriz ficou no ar como uma badalada que continua a ouvir-se muito depois de ter soado. Depois ficou apenas o ruído monótono da chuva na varanda a realçar o silêncio.&lt;br /&gt;O rosto dela ganhou luz preparado para falar e o dele perdeu toda a expressividade, a preparar-se para ouvir. A inteligência pode ser uma vantagem, quando se quer perceber alguma coisa, mas é sempre um grande obstáculo quando se quer esquecer.&lt;br /&gt;E depois quando ela disse: "A primeira vez que vi essa tua perna nua, achei que eras alguém especial, que tinhas uma história, que tinhas densidade; que não te esgotarias na amizade, no sexo…", ele levantou-se enquanto o ruído da chuva enchia aquele quarto de silêncio.&lt;br /&gt;Apalpou os bolsos à procura do maço de tabaco, num gesto que abandonara há anos, e sentiu-se desarmado. Não seria possível terminar aqui a conversa sem perder a serenidade.&lt;br /&gt;Olhou-a de frente. – Acredita que há desequilíbrios que não têm dinâmica nem estética nenhuma. Há cores que destoam dentro de um homem e sons que desafinam a sua sanidade mental, a tal ponto, que parecer-se alguém especial porque se teve uma história que deixou uma marca no seu corpo é algo pouco mais do que fútil. Não fazes ideia de como se pode ansiar pela mediocridade, de como se pode desejar ser um entre uma multidão anónima; para quem, o mais longe que foi, foi em passeio; para quem, a maior emoção vivida, foi vivida como espectador; para quem nada em si o ligue irremediavelmente a um caminho que desejaria desesperadamente nunca ter percorrido. Tanto, que é possível matarmos esse que fomos, um suicídio de personalidade, e seguirmos pela vida fora tentando renascer como outra pessoa.&lt;br /&gt;Dar-te prazer saber desse que fui, é como se me desse prazer a mim falar de uma violação de que tivesses sido vítima, só pela volúpia egoísta de te poder consolar.&lt;br /&gt;Tu não podes entender o que foi ter nascido nos nossos olhos, a pouco e pouco, o brilho sinistro da morte. Como uma insanidade moral, porque o soldado faz a guerra e a guerra faz o soldado. Chegámos àquilo a que se pode reduzir um ser humano. Chegámos ao patamar da animalidade.&lt;br /&gt;– Mas tu lutaste pela sobrevivência, mataste para não morrer.&lt;br /&gt;– Não percebes nada do que estás a falar. Sabes… o melhor soldado não é aquele que luta por um ideal, nem o que luta para sobreviver, o melhor soldado é aquele que luta sabendo que vai morrer. Não é a esperança que faz um soldado matar, é o desespero.&lt;br /&gt;As guerras não têm estética possível, porque só têm um lado: o lado abjecto da chacina.&lt;br /&gt;A cor quente do sangue a destoar na frescura verde da paisagem. O terror a desequilibrar a excessiva harmonia do rosto dos inocentes que nos olham antes de morrer à procura de um resíduo de humanidade.&lt;br /&gt;Tragicamente belo não é? No fim da ópera o público abandona a sala e regressa ao ócio dos salões; no fim do romance fecha-se o livro e regressa-se ao conforto do sofá; no fim do filme desliga-se a televisão e toda a tragédia vai para onde foram os nossos pesadelos de infância ao acordarmos em conforto e segurança na cama dos nossos pais; mas, e se não tivermos como desligar os nossos pesadelos? E se a nossa história for o monstro que temos fechado na cave da nossa própria casa, enquanto tentamos dormir em paz no quarto por cima dele? Pior: esse monstro é a parte de nós que já morreu, à espera que abram o alçapão, para vir tomar posse do que resta de nós.&lt;br /&gt;Procurou de novo o tabaco nos bolsos, como se não tivessem passado dez anos desde que deixara de fumar, como se uma parte de si que tivesse morrido numa guerra antiga tivesse vindo tomar posse do seu corpo.&lt;br /&gt;Sofia, ainda nua, ainda suada, ainda sentada na cama; levantou o braço para o prender quando recebeu o beijo de despedida, mas em vez disso, cobriu apenas o corpo como se tivesse acordado nua na presença de um estranho. E ficou assustada. E ficou a vê-lo sair como alguém que foge para procurar refúgio numa multidão anónima. Os seus passos a perderem-se pelas escadas abaixo e a confundirem-se com aquela chuva de verão que fervilhava na varanda.&lt;br /&gt;O silêncio com a voz ciciante da chuva. O corpo subitamente subtraído a uma violação. Os pensamentos, agora, como fotos exibidas num diaporama, uma após outra, ordenadas, obsessivas, explícitas, a acusarem-na de um caminho que não deveria ter percorrido. A mostrarem como o racionalismo pode transformar os sentimentos em puro cinismo.&lt;br /&gt;Sofia é uma mulher feliz, demasiadamente feliz para entender que a curiosidade pode ser tão cruel como a besta que descobre hibernando no fundo da alma humana.&lt;br /&gt;Quando saiu para a rua sob a chuva tristíssima de verão viu a ondulação voyeurista da cortina do segundo esquerdo e uma sombra de censura ficou muito tempo a assombrar-lhe os passos pela escada abaixo, até se perder, ela também, por entre a multidão anónima. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5691625468132851547-7982297836050556413?l=episodiosdopos-guerra.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://episodiosdopos-guerra.blogspot.com/feeds/7982297836050556413/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5691625468132851547&amp;postID=7982297836050556413' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5691625468132851547/posts/default/7982297836050556413'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5691625468132851547/posts/default/7982297836050556413'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://episodiosdopos-guerra.blogspot.com/2009/12/o-inconveniente-da-inteligencia.html' title='O Inconveniente da Inteligência'/><author><name>Manuel Bastos</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08931715969785497183</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/_HoddYLLd75o/TGVwNwmn4aI/AAAAAAAAAiU/KQqkluN1xbw/S220/PhotoContact3.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_HoddYLLd75o/Sx0qHausmeI/AAAAAAAAAfk/c7vay9g0Im4/s72-c/garage-window-curtains.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5691625468132851547.post-5039482564256968283</id><published>2009-11-01T15:31:00.000-08:00</published><updated>2009-11-01T15:35:30.589-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Mulheres e a Guerra'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Stress Pós traumático'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Guerra Colonial'/><title type='text'>A Visita</title><content type='html'>&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_HoddYLLd75o/Su4a_PG4_LI/AAAAAAAAAe0/2XX7h1RMkOk/s1600-h/A+Visita.jpg"&gt;&lt;img style="WIDTH: 400px; HEIGHT: 300px; CURSOR: hand" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5399282676953316530" border="0" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/_HoddYLLd75o/Su4a_PG4_LI/AAAAAAAAAe0/2XX7h1RMkOk/s400/A+Visita.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt;Sei que estás a pensar "Ó Zé, cala-te", mas temos tempo de ficar calados; é preciso dizermos alguma coisa para termos a certeza que ainda andamos por aqui. Sabes lá a falta que me faz ouvir-te cantar. Tu cantavas muito bem Etelvina; eu às vezes queria acompanhar-te, mas começava a desafinar e tu rias-te de mim, e eu ficava sem jeito. Depois deixaste de cantar. Se vinhas a cantar na rua, calavas-te mal entravas em casa… Não faças essa cara, pronto, não falo mais nisso.&lt;br /&gt;Parecem boas as maçãs que me trouxeste. Preferia flores. Sim, eu sei, nunca dei valor às tuas flores, mas aqui não há flores, aqui falta um bocado de cor às coisas. E a cor faz-me falta.&lt;br /&gt;Olho para trás e parece-me que a minha vida foi quase toda a preto-e-branco. No baile da Mamarrosa tu olhavas para o chão quando eu olhava para ti, e eu não tinha coragem para te convidar. Eu tinha as mãos cozidas com o cimento das obras, encortiçadas pelo trabalho, e ele tinha mãos de quem não fazia nada; quando tiravas os olhos do chão, Etelvina, era para ele que olhavas, e quando olhavas para ele o teu rosto mudava como uma janela onde bate o sol. Às vezes também olhavas para mim, mas quando olhavas para mim, nada no teu rosto mudava. Eu não tinha luz suficiente para te iluminar Etelvina. Parece-me que vivi sempre à sombra até te ver sorrir.&lt;br /&gt;Porque será que um dia sorriste para mim, Etelvina? Porque foi que um dia os teus olhos pousaram em mim um foco de luz? Nesse dia descobri que o mundo era a cores.&lt;br /&gt;Agora a cor faz-me falta. O médico perguntou-me "O que é que o amigo Sousa sente?" e eu: Sinto falta de cor. E ele ficou a olhar para mim como se eu tivesse um tomate esborrachado na testa.&lt;br /&gt;Ao princípio parecia um rato a roer-me a alma, depois o rato transformou-se num cão danado sempre a roer-me a alma. E eu a ficar vazio por dentro, à medida que ele me comia a alma. Agora já não sinto a falta da alma; os remédios encheram o espaço vazio como se eu fosse um boneco de trapos; mas falta-me a cor. Traz-me flores Etelvina. Quando voltares a visitar-me traz-me flores. Mas as maçãs parecem boas.&lt;br /&gt;Em África lembrava-me bem das tuas canções e ouvia-te cantar na minha cabeça. Foi isso que me valeu na guerra, as canções que tu cantavas dentro da minha cabeça. Agora já não me lembro. Será que um dia eras capaz de cantar para mim?&lt;br /&gt;Que estás a ver? Aí da janela só se vêem os telhados da enfermaria das mulheres, não há nada pra ver. Às vezes fico aí horas a fio como tu estás agora, e de vez em quando passa uma ave. Quando isso acontece só não fico feliz porque já não me lembro como é. Mas alguma coisa muda cá dentro quando passa uma ave.&lt;br /&gt;Sinto tanta solidão Etelvina. A maior solidão não é quando sentimos falta dos nossos entes queridos, dos nossos amigos, dos outros; mas quando sentimos falta de nós; quando deixamos de saber de nós. Se ao menos tivesse a memória de uma bela história de amor para me fazer companhia, mas a nossa história parece ter sido feita de coisas que não aconteceram Etelvina. Devia ter emigrado contigo como tu querias, em vez de ir para a guerra, devíamos ter ido à procura de uma história para nós; devíamos ter feito, ao menos, uma grande viagem.&lt;br /&gt;Ah, que é isso? Não fiques assim. Aqui é proibido andar triste. Vem logo alguém perguntar se tomámos os remédios, e se não nos pomos com boa cara reforçam-nos a dose não tarda nada.&lt;br /&gt;Mas o pior é a falta de cor. As pessoas não têm cor, as paredes não têm cor, a comida não tem cor.&lt;br /&gt;Mas de resto estou bem. Sabes, até estou bem demais. Não me dói nada. Nada me incomoda. Faz-me falta ter alguma coisa, mesmo que fosse má. Uma dor, ou assim. Quando me sentia só, em África, eu ferrava as unhas na pele para ter a certeza que ainda estava vivo, agora parece que é proibido sofrer, e dão-me remédios para eu não sentir nada. É por isso que passo aí horas esquecidas à espera que passe uma ave. É que me tiraram tudo, Etelvina. Agora tiraram-me até a dor. Faz-me falta ao menos um pequeno desconforto. Será que seria muito pedir um pouco de chuva a cair-me no rosto?&lt;br /&gt;Mas o médico acha que vai ser difícil os gajos lá em cima acreditarem que isto começou em África. O pior é para ti, sempre era uma ajuda, que o teu patrão, à medida que envelheceste, deixou de te aumentar. Ah, não olhes para mim assim, que eu sempre soube e não te levo a mal. Sabes lá o que um homem guarda cá dentro quando tem um espaço vazio no lugar da alma. Quando um homem aprende a aceitar a morte como uma coisa sem importância.&lt;br /&gt;Mortes sem importância. Como espantalhos caídos no capim. Era como se nunca tivessem vivido. E eles não acreditam que isto começou em África.&lt;br /&gt;É um crime tirarem um homem do lugar onde vive e atirarem-no para o fundo do porão de um navio e mandarem-no para a matança como um porco. E o lugar onde eu vivia eras tu Etelvina. Lembro-me do teu corpo como um lugar aonde podia regressar no fim do dia. Olhava nos teus olhos, Etelvina, e sentia que tinha chegado ao meu destino.&lt;br /&gt;O furriel dizia que se eu soubesse escrever era um poeta. Nunca percebi se era a gozar comigo. Mas percebo que quando deixei esta terra para ir para a guerra deixei o teu corpo desabitado e um homem não pode nunca deixar o seu lugar desabitado, nunca deve abandonar a sua casa, e tu eras a casa onde eu queria viver Etelvina.&lt;br /&gt;Às vezes chegava um aerograma teu e eu ficava feliz. Nessa altura ainda me lembrava como era ser feliz. Era como ver todas as aves do céu; era como sentir a alma de todas as cores. E o furriel dizia-me "Ó Sousa, hoje estás de alma lavada". Mas à medida que o tempo foi passando a alma foi-me ficando encardida.&lt;br /&gt;Eu sei que isto começou em África, porque uma ocasião olhei para um aerograma teu e reparei que as tuas palavras não tinham cor nenhuma, pareciam escritas com cinza. Nesse dia não consegui ouvir-te cantar dentro da minha cabeça. Foi a partir daí que alguma coisa cá dentro me começou a comer a alma.&lt;br /&gt;Quando eu fui embora, o meu pai com vergonha de estar a chorar. A minha mãe a dizer "Meu filho. Meu filho. Meu filho", e tu a olhares para o chão como no baile da Mamarrosa.&lt;br /&gt;Eu podia ter fugido pra França como o meu primo, mas eu pensei: seja o que deus quiser, eu sou um paz d'alma que não faço mal a uma mosca, mas vou cumprir a minha obrigação. Maldita a hora, aquilo era porrada de criar bicho e eu queria voltar a ver-te Etelvina, por isso fiz tudo para sobreviver.&lt;br /&gt;Mas sobreviver a uma guerra não é grande coisa, Etelvina. Quando os mortos não têm importância de que vale sobreviver? Além disso, Etelvina, eu não sobrevivi completamente, alguma coisa minha lá morreu.&lt;br /&gt;Quando voltei, o meu pai envergonhado das lágrimas novamente. A minha mãe novamente a dizer "Meu filho" vezes sem conta, e tu novamente sem conseguires olhar nos meus olhos, como no baile da Mamarrosa. E eu olhava para vocês e pensava que ainda não tinha acabado de chegar, que uma parte de mim tinha ficado para trás, muito, muito para trás.&lt;br /&gt;Ainda se ao menos nos ensinassem a ser civis de novo, como nos ensinaram a ser soldados, mas não. Durante meses e meses eu continuei a ser apenas um soldado no meio dos patos e das galinhas. Um soldado que tinha perdido a arma algures. Acreditas que sentia falta da arma? Quando se anda na guerra, Etelvina é preciso mais tempo para conseguir trazer a alma toda de volta.&lt;br /&gt;E depois, quando voltei, nunca mais te ouvi cantar para mim, Etelvina. Se vinhas a cantar na rua, calavas-te mal entravas em casa. Eu sei, eu sei; não é fácil viver com um homem que vai ficando oco por dentro.&lt;br /&gt;Esse telhado é como um espelho, Etelvina, olho-o e vejo o vazio que vai dentro de mim. Mas quando tenho sorte, passa uma ave e fico um nadinha mais perto da felicidade.&lt;br /&gt;Deve estar a passar o efeito dos remédios. Daqui a nada vem o enfermeiro e o vazio logo desaparece, e depois vou ficar atafulhado com um monte de farrapos cá dentro.&lt;br /&gt;Onde estás? Já foste embora? Ah Etelvina… Ia jurar que tinhas vindo visitar-me e que me tinhas trazido maçãs. Se ao menos me escrevesses um aerograma. Pareciam boas, as maçãs.&lt;br /&gt;Mas traz-me antes flores Etelvina.&lt;br /&gt;Trazes?&lt;/span&gt; &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5691625468132851547-5039482564256968283?l=episodiosdopos-guerra.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://episodiosdopos-guerra.blogspot.com/feeds/5039482564256968283/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5691625468132851547&amp;postID=5039482564256968283' title='2 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5691625468132851547/posts/default/5039482564256968283'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5691625468132851547/posts/default/5039482564256968283'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://episodiosdopos-guerra.blogspot.com/2009/11/visita.html' title='A Visita'/><author><name>Manuel Bastos</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08931715969785497183</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/_HoddYLLd75o/TGVwNwmn4aI/AAAAAAAAAiU/KQqkluN1xbw/S220/PhotoContact3.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_HoddYLLd75o/Su4a_PG4_LI/AAAAAAAAAe0/2XX7h1RMkOk/s72-c/A+Visita.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5691625468132851547.post-8976597701838254475</id><published>2009-09-29T10:57:00.000-07:00</published><updated>2009-09-29T11:01:24.326-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Aguim'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Regresso a Casa'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Curia'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Guerra Colonial'/><title type='text'>A Persistência da Dor</title><content type='html'>No chão da gare da Curia a minha sombra imita um flamingo enquanto eu me equilibro pondo a perna amputada sobre a canadiana, de modo a usar ambas as mãos para acender o cigarro.&lt;br /&gt;As pessoas passam por mim e abrandam a voz como se faz quando somos surpreendidos a meio de uma conversa por uma visão inesperada.&lt;br /&gt;Algumas a olharem para trás, depois de passarem.&lt;br /&gt;Uma folha d' O Século que o vento não consegue descolar do chão. Levanta-lhe uma ponta, fá-la ondular mas ela não sai dali. E, vinda não sei de onde, uma canção dos Procol Harum: &lt;em&gt;Saltitávamos o alegre fandango, Fazíamos cabriolas pelo chão; Eu sentia-me um pouco enjoado Mas as pessoas pediam mais…&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;O vento a brincar com o jornal. Uma velhinha a descer da carruagem. As pessoas impacientes à espera que ela desimpeça o caminho. E a canção com sonoridades barrocas e letra psicadélica: &lt;em&gt;Quando a moleira contou a sua história O rosto dela, a princípio só assombrado, Ficou branco como a cal da parede…&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;A velhinha a aproximar-se de mim olhando para a minha mochila no chão como quem vem em meu auxílio, e eu, num movimento que lhe deve ter parecido acrobático, rodo sobre o único pé, pego com ambas as mãos na mochila, as canadianas presas aos braços pelos apoios, volto a rodar em sentido contrário, e depois de encaixar a mochila às costas passo por ela sem pudor, ignorando a crueldade da minha exibição. Olho para trás e vejo-a tristíssima a ver-me a afastar, andando duas vezes mais rápido do que ela. Daria decerto uma perna para ter a minha idade e o meu vigor. Abrandei a marcha envergonhado, como se por andar mais lentamente agora, eu pudesse diminuir o meu sentimento de culpa.&lt;br /&gt;Cá fora já não resta nenhum táxi, e eu volto a entrar no átrio da estação para procurar um banco. E a velhinha passa por mim. Os nossos olhares cruzam-se por instantes, e ela sorri-me com a doce complacência dos que já viram de tudo na vida, o que aumenta o meu remorso.&lt;br /&gt;Só encontro onde sentar-me na gare.&lt;br /&gt;Há luz demais, tenho que semicerrar os olhos para ver para além da sombra. A folha de jornal, ao longe, inundada de luz, como uma foto tirada em sobreexposição.&lt;br /&gt;A folha a fazer negaças ao vento.&lt;br /&gt;A música a arremedar uma suite de Bach, os versos delirantes: &lt;em&gt;Por entre as cartas de jogar Indaguei se não seria Uma das dezasseis virgens vestais Que se dirigiam para a costa E embora tivesse os olhos abertos Bem os podia ter fechados.&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;A música repetitiva, que afinal sai pelas frinchas de uma porta a dizer "Chefe da Estação", começa a fazer-me sono, e uma sensação de desamparo toma conta de mim.&lt;br /&gt;Parece que iniciei aqui uma viagem à volta do mundo, que fui apanhando coisas pelo caminho até constituir um enorme património, que depois, por cansaço e preguiça, por descuido e negligência, fui perdendo a pouco e pouco, e que agora, aqui de novo, terminada a viagem, disso nada resta, para além de algumas esparsas memórias. Memórias de alegrias amargas e perigos letais reduzidas a algumas imagens dispersas. Memórias de amigos e inimigos de que acabarei por me esquecer completamente.&lt;br /&gt;Tenho que me por de pé para não adormecer.&lt;br /&gt;De Santa Apolónia até aqui também fiz de tudo para não cair no sono, dado que sou perito em não acertar com a estação onde quero sair. Já fui parar sem querer a Campanhã, e depois, tomado o comboio em sentido contrário, fui ter à Mealhada, quando o meu destino era o quartel de Paramos, mais ou menos a meio caminho.&lt;br /&gt;Assim, fiz de tudo para me manter acordado, mas os meus olhos acabavam sempre por descaírem mortiços para o meu sapato, solitário entre as duas canadianas, que parecia ter qualquer poder hipnótico. E lá fora a paisagem numa vertigem.&lt;br /&gt;– Se olhares para as botas com atenção o comboio pára.&lt;br /&gt;– A sério avô?&lt;br /&gt;Desde a minha infância a ilusão egocêntrica da biqueira do meu sapato a parar o comboio e a fazer a paisagem correr para trás. Se existissem comboios no tempo de Galileu talvez ele não tivesse sido humilhado pelos sinistros juízes da Inquisição, e talvez lhes tivesse sugerido que dessem mais atenção às biqueiras das botas do que à inspiração divina, pois que mais vale encontrar as soluções para os problemas transcendentes nas coisas insignificantes, do que justificar até as coisas mais insignificantes com a transcendência.&lt;br /&gt;Depois, finalmente, a paisagem da torre da capela de Aguim com o Buçaco ao fundo como um rosto familiar, a dizerem-me que cheguei finalmente a casa.&lt;br /&gt;Que longas que são as viagens que têm uma guerra pelo meio.&lt;br /&gt;A torre da capela de Aguim apareceu ao longe na paisagem como um embuçado em pleno dia, e ao fundo o dorso da Serra do Buçaco tão esbatido que mal se distinguia do céu. Se fosse eu a pintar aquele quadro, punha um pouco mais de terra-de-sena para que um tom quase imperceptível de púrpura criasse a ilusão da distância; assim parecia que estava tudo no mesmo plano, e a torre branca da capela da N.ª Sr.ª do Ó parecia pintada sobre um papel de cenário.&lt;br /&gt;Agora estamos finalmente sós na gare da estação da Curia: eu à espera que venha um táxi, e a folha de jornal que o vento não consegue tirar dali.&lt;br /&gt;Então, repentinamente, um comboio passa sem parar. Os rostos a repetirem-se janela após janela como numa fita de um filme. Um ribombar contínuo de mil marretas em mil bigornas, que estilhaça o silêncio e bloqueia a atenção, fazendo ignorar tudo o resto. Um pânico repentino alvoroçando a folha do jornal atirada brutalmente contra o tecto da gare.&lt;br /&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_HoddYLLd75o/SsJJIVm-ELI/AAAAAAAAAeM/rqmAFG8NEwk/s1600-h/Persist%C3%AAncia+da+dor.jpg"&gt;&lt;img style="WIDTH: 400px; HEIGHT: 300px; CURSOR: hand" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5386948511876911282" border="0" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_HoddYLLd75o/SsJJIVm-ELI/AAAAAAAAAeM/rqmAFG8NEwk/s400/Persist%C3%AAncia+da+dor.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;Por fim, fica apenas a aragem revolta e o silêncio. Mas dentro de mim permanece o eco, ou a memória do som como um desassossego da alma, tal como a dor permanece para além da bofetada.&lt;br /&gt;Sim, toda a dor sobrevive muito tempo ao golpe. Mesmo quando se fecham as feridas; mesmo quando o riso regressa aos rostos; mesmo quando um sorriso sábio e complacente nos redime do nosso cruel egocentrismo; mesmo quando regressamos finalmente a casa e deixamos uma guerra longínqua para trás.&lt;br /&gt;E a folha de jornal inquieta ainda, já o comboio vai longe…&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5691625468132851547-8976597701838254475?l=episodiosdopos-guerra.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://episodiosdopos-guerra.blogspot.com/feeds/8976597701838254475/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5691625468132851547&amp;postID=8976597701838254475' title='1 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5691625468132851547/posts/default/8976597701838254475'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5691625468132851547/posts/default/8976597701838254475'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://episodiosdopos-guerra.blogspot.com/2009/09/persistencia-da-dor.html' title='A Persistência da Dor'/><author><name>Manuel Bastos</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08931715969785497183</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/_HoddYLLd75o/TGVwNwmn4aI/AAAAAAAAAiU/KQqkluN1xbw/S220/PhotoContact3.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_HoddYLLd75o/SsJJIVm-ELI/AAAAAAAAAeM/rqmAFG8NEwk/s72-c/Persist%C3%AAncia+da+dor.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5691625468132851547.post-2238050628788758233</id><published>2009-07-20T18:57:00.001-07:00</published><updated>2009-07-20T20:01:40.902-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Mulheres e a Guerra'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Guerra Colonial'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Efermeiras Pára-quedistas'/><title type='text'>A Enfermeira que Vinha do Céu</title><content type='html'>&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_HoddYLLd75o/SmUoqJVg4gI/AAAAAAAAAd0/g-30ndS7A6Y/s1600-h/Mueda+-+Medita%C3%A7%C3%A3o.jpg"&gt;&lt;img style="WIDTH: 400px; HEIGHT: 268px; CURSOR: hand" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5360735635980214786" border="0" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_HoddYLLd75o/SmUoqJVg4gI/AAAAAAAAAd0/g-30ndS7A6Y/s400/Mueda+-+Medita%C3%A7%C3%A3o.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Se o comboio avança em direcção à Gare do Oriente porque me dá a ideia que recuo no tempo? Daqui a pouco uma mulher por entre a multidão avançará para mim empunhando a boina verde de uma farda há muito desmobilizada, distintivo, noutro tempo, de uma tropa de elite, identificação hoje para um encontro agendado.&lt;br /&gt;Todo o encontro cria uma ruptura. O que era até ali deixará de o ser como era. Passamos às vezes por uma pessoa na rua e tudo muda na nossa vida. Alguém que nos diz bom-dia de uma forma diferente, ou nos dá um sorriso, ou nos olha com um brilho de inteligência no olhar e nos garante que o Universo é habitado. Nunca agradecemos a uma pessoa assim que muda a nossa vida. Ela esfuma-se no tempo. Afunda-se na vida. Perde-se no labirinto do mundo.&lt;br /&gt;Se voltamos a passar por ela nem a reconheceremos. Ela apenas passou por nós, porém, ao passar por nós fez-nos desviar a atenção, iluminou com um relance do seu olhar um pensamento sombrio, e esse seu pequeno impacto fez-nos atrasar o minuto fatal em que iríamos cometer um erro irremissível; desviou a nossa trajectória o suficiente para salvar o nosso dia.&lt;br /&gt;E se uma pessoa assim tiver interferido na trajectória da nossa vida de uma forma consciente e calculada por ter imposto a si mesma esse dever, quando tudo o mais à sua volta se resumia à primária luta da sobrevivência? Uma pessoa cujo impacto na nossa vida nos desviou da trajectória da própria morte. &lt;div&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_HoddYLLd75o/SmUh_JdUzPI/AAAAAAAAAdE/KBWXLURTmnk/s1600-h/Machado+Evac+do+Barbosa+-+Morto+em+Combate_3.jpg"&gt;&lt;img style="WIDTH: 400px; HEIGHT: 265px; CURSOR: hand" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5360728300208835826" border="0" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_HoddYLLd75o/SmUh_JdUzPI/AAAAAAAAAdE/KBWXLURTmnk/s400/Machado+Evac+do+Barbosa+-+Morto+em+Combate_3.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;Eu daqui a pouco a descer pelas escadas rolantes, e o ribombar dos comboios por cima de mim. E a ideia que recuo no tempo. E a certeza que vou encontrar no piso inferior uma longa fila de veículos militares.&lt;br /&gt;E eu, eu fora de mim, imaginando-me no lugar do piloto do helicóptero a calcular o espaço entre os ramos das árvores para aterrar na picada, e a ver um soldado prostrado com as marcas da explosão a irradiar do seu corpo.&lt;br /&gt;Eu agora a olhar para cima com os olhos do enfermeiro Costa. Corajosamente desarmado, segurando o saco do soro e olhando para o céu em busca do socorro.&lt;br /&gt;Eu agora envergando a T-shirt branca e sentindo o coração ansioso da enfermeira no meu peito. Eu ansioso por chegar, ansioso por me antecipar à Morte.&lt;br /&gt;Eu agora no meu próprio corpo, deitado de costas no chão a ver chegar a enfermeira correndo para mim.&lt;br /&gt;Eu com frio.&lt;br /&gt;Tanto sol e eu com frio.&lt;br /&gt;Tanto frio. &lt;div&gt;&lt;div&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_HoddYLLd75o/SmUh_tKkRII/AAAAAAAAAdM/9bWJNji3DQs/s1600-h/Mueda+-+Hospital+-+Evacua%C3%A7%C3%A3o.JPG"&gt;&lt;img style="WIDTH: 400px; HEIGHT: 261px; CURSOR: hand" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5360728309793834114" border="0" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/_HoddYLLd75o/SmUh_tKkRII/AAAAAAAAAdM/9bWJNji3DQs/s400/Mueda+-+Hospital+-+Evacua%C3%A7%C3%A3o.JPG" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;Entretanto voltei: o presente impõe-se à memória e traz-me as linhas geométricas da cidade vistas da janela do comboio. Se foi Deus que fez o mundo, não criou uma única linha recta, uma só curva perfeita, ofereceu-nos o caos, e nós vamos destruindo essa aconchegante liberdade com a árida prepotência da geometria. Ou então são saudades de África.&lt;br /&gt;Imagino a Gare do Oriente, onde o comboio vai parar dentro de minutos, que tantas vezes achei uma arrojada criação fitomórfica a quebrar a inorgânica monotonia urbana, e que agora antecipo como um desenho repetitivo, reduzido ao arremedo simétrico de um bosque. São saudades de África: dorme-se uma noite na desordem corajosa da mata eterna, e aprende-se a desprezar a fútil esquadria dos jardins, a domesticada ordenação da arquitectura urbana.&lt;br /&gt;Quem nos vir daqui a pouco, frente a frente, eu e a enfermeira pára-quedista à mesa de um restaurante, jamais imaginará que o que nos separa não será o tampo da mesa, serão 37 anos de vida e uma guerra. A mesma guerra que fez com que as trajectórias das nossas duas vidas se encontrassem.&lt;br /&gt;Há, evidentemente, alguns factores que reduzem o grau de imprevisibilidade desse nosso primeiro encontro; mas neste momento, quando o comboio já está quase parado na plataforma de embarque da Gare do Oriente, só consigo pensar que foram precisos largos séculos de história colonial e duas trajectórias erráticas, como erráticas são sempre as trajectórias dos seres humanos, para nos encontrarmos no preciso lugar onde uma mina anti-pessoal terrestre aguardava há alguns dias pela minha bota esquerda. E isso é algo que transcende o meu poder de cálculo de probabilidades.&lt;br /&gt;E onde aconteceu tudo isso? Numa picada perdida do norte de Moçambique ou num lugar recôndito da minha imaginação?&lt;br /&gt;Eu com frio e o sorriso cálido da enfermeira. Eu na solidão absoluta perante a Morte e um sorriso que me garantia mais do que a certeza de que o Universo era habitado. A certeza que, mesmo quando tudo parece ter descido ao mais baixo patamar da humanidade, a esperança pode ser-nos trazida por um cândido sorriso de mulher.&lt;br /&gt;E o Alfa parou.&lt;br /&gt;Não sei em que ano parou. Não sei em que mundo.&lt;br /&gt;Vou sair por aquela porta para a plataforma de embarque com a convicção de que a realidade não me será suficiente. Mas a realidade nunca é suficiente: é para isso que há sonho, música e poesia.&lt;br /&gt;Era uma vez uma guerra.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Era uma vez uma enfermeira que vinha do céu.&lt;br /&gt;Ela chegava e a esperança de vida aumentava.&lt;br /&gt;Vinha do céu&lt;br /&gt;e pousava de helicóptero&lt;br /&gt;com subtilezas de anjo.&lt;br /&gt;Ultrapassava a Morte&lt;br /&gt;e levava-nos&lt;br /&gt;num abraço de Pietá.&lt;br /&gt;Amava-nos sem saber&lt;br /&gt;a enfermeira da T-shirt branca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_HoddYLLd75o/SmUoqZx7rPI/AAAAAAAAAd8/lo4EK-rSifM/s1600-h/Bloco+operat%C3%B3rio+em+Mueda_e.jpg"&gt;&lt;img style="WIDTH: 400px; HEIGHT: 269px; CURSOR: hand" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5360735640394378482" border="0" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_HoddYLLd75o/SmUoqZx7rPI/AAAAAAAAAd8/lo4EK-rSifM/s400/Bloco+operat%C3%B3rio+em+Mueda_e.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;A Grande Prostituta pairava sempre sobre nós, e quando tombávamos ajoelhava-se para nos invaginar. Às vezes o enfermeiro Costa tentando a ternura: - Não me morras filho da puta! E quando a vida não era mais do que um fio, ansiávamos que a salvação viesse do céu.&lt;br /&gt;E vinha!&lt;br /&gt;Vinha de T-shirt branca e levava com ela os nossos camaradas feridos, e durante uns breves minutos o terror dava lugar a uma leve sensação de doçura.&lt;br /&gt;E era então que me apetecia chorar; que um homem até aguenta a dor e o medo da morte mas não resiste à generosidade de uma mulher.&lt;br /&gt;Levou o Lemos, levou o Raimundo, levou-me a mim. E um dia, quando parecia que tudo o que passei na guerra se tinha desvanecido para sempre, dei por mim a desenhá-la com palavras, como personagem de um livro. Com palavras que trouxe a vida inteira comigo.&lt;br /&gt;Hoje a mulher por detrás da personagem ocupará o seu lugar aferindo a ficção pela realidade, deixará de ser uma silhueta desvanecida de uma foto antiga no heliporto de Mueda, a personagem construída a partir da fantasia literária e das memórias difusas de um velho soldado, a personagem que um leitor do livro levou a sério e procurou no labirinto do mundo até a encontrar.&lt;br /&gt;Sairá hoje das páginas do livro para falar com o autor.&lt;br /&gt;E o Alfa parou.&lt;br /&gt;- Olá Piedade!&lt;br /&gt;- Olá Manuel!&lt;br /&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_HoddYLLd75o/SmUiBochN6I/AAAAAAAAAdk/-4tAt-f7osM/s1600-h/HPIM1014.jpg"&gt;&lt;img style="WIDTH: 400px; HEIGHT: 300px; CURSOR: hand" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5360728342886692770" border="0" alt="" src="http://3.bp.blogspot.com/_HoddYLLd75o/SmUiBochN6I/AAAAAAAAAdk/-4tAt-f7osM/s400/HPIM1014.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5691625468132851547-2238050628788758233?l=episodiosdopos-guerra.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://episodiosdopos-guerra.blogspot.com/feeds/2238050628788758233/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5691625468132851547&amp;postID=2238050628788758233' title='3 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5691625468132851547/posts/default/2238050628788758233'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5691625468132851547/posts/default/2238050628788758233'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://episodiosdopos-guerra.blogspot.com/2009/07/enfermeira-que-vinha-do-ceu.html' title='A Enfermeira que Vinha do Céu'/><author><name>Manuel Bastos</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08931715969785497183</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/_HoddYLLd75o/TGVwNwmn4aI/AAAAAAAAAiU/KQqkluN1xbw/S220/PhotoContact3.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_HoddYLLd75o/SmUoqJVg4gI/AAAAAAAAAd0/g-30ndS7A6Y/s72-c/Mueda+-+Medita%C3%A7%C3%A3o.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5691625468132851547.post-6019595317961984147</id><published>2009-04-28T06:01:00.000-07:00</published><updated>2009-04-28T06:07:28.983-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Mulheres e a Guerra'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Guerra Colonial'/><title type='text'>A Estrada</title><content type='html'>&lt;div&gt;Virou-se para trás como se alguém a tivesse chamado, e fitou a estrada a afunilar até desaparecer numa curva distante entre pinheiros.&lt;br /&gt;Virou-se para trás como se o caminho que levasse não levasse a lugar algum.&lt;/div&gt;Virou-se para trás como se não houvesse esperança alguma à sua frente.&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_HoddYLLd75o/Sfb_DDSO0fI/AAAAAAAAAbM/REiouFli3M4/s1600-h/Estrada.jpg"&gt;&lt;img style="WIDTH: 300px; HEIGHT: 400px; CURSOR: hand" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5329727636926026226" border="0" alt="" src="http://3.bp.blogspot.com/_HoddYLLd75o/Sfb_DDSO0fI/AAAAAAAAAbM/REiouFli3M4/s400/Estrada.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Se ao menos pudesse sentar-se para ganhar ânimo, mas a estrada era como a sua vida: vinha de algures para além de uma curva e seguia em frente até outra curva, sem nada pelo meio.&lt;br /&gt;E a estrada deserta. E o corpo sem ânimo como se tivesse acabado ali algo de fundamental e irrecuperável.&lt;br /&gt;Do lado esquerdo o terreno subia, subia, até completar a Serra do Buçaco, para o lado direito o terreno descia, descia, até se confundir todo por entre os campos e as aldeias, sem ordem nenhuma nem beleza. E ali, como um risco feito com um pau na terra, estava a estrada, como se a sua única função fosse dividir o mundo ao meio sem levar a lado nenhum. E a meio caminho entre as duas curvas, estava ela.&lt;br /&gt;Houve um tempo em que aquela estrada a faria sonhar, quando o seu corpo era todo ele harmonia, e o simples desnudamento do arco ogival de um seio fazia com que os homens nele convergissem o olhar como se fosse uma luz que se tivesse acendido de repente.&lt;br /&gt;Foi num momento assim que ele veio todo sem jeito, atraído pela réstia do seu seio, enquanto no coreto os músicos se esforçavam por tocarem todos a mesma música, e todos ao mesmo tempo.&lt;br /&gt;Um dia, algures por ali, entre o desalinho complicado das aldeias e o cume simples da Serra, ela acendera-lhe de novo um seio, e depois encandeara-o com a luminosa nudez do seu corpo.&lt;br /&gt;Nenhum homem sabe como é forte o corpo de uma mulher, como é enganadora a sua aparente fragilidade. Ele desfizera-se da roupa atabalhoadamente, afogueado de paixão, investindo sobre ela com gestos toscos de varrasco, resfolegando como um minotauro tresloucado pelas hormonas, e ela acolhera-o suavemente como a capa do toureiro acolhe as pontas erectas de um touro enraivecido; uma e outra vez, uma e outra vez. Nenhum homem sabe como é sábia a aparente complacência e submissão de uma mulher, que acaba sempre por dominar o mar revolto que há no desejo do macho, até ele se esvair em espuma, desfeito e exausto, arfando indefeso sobre a praia morna do seu corpo. Nesse dia ele passou a pertencer-lhe.&lt;br /&gt;Os olhos ainda colados na curva da estrada atrás de si pareciam medir a distância já percorrida, ou mais que a distância: o tempo. Não há maior ilusão do que a de pensarmos que o tempo passa. A vida é uma estrada como esta, parada entre o vale e a montanha e nós é que vamos caminhando de curva em curva até nos consumirmos e ficarmos assim a olhar para a última curva lá atrás, como se pudéssemos viajar no próprio olhar para o passado.&lt;br /&gt;Há quanto tempo ela o fizera seu, ali naquela mata? Há uma eternidade. Há quanto tempo, algum tempo depois, o vira partir de farda verde sujo e mochila às costas para uma guerra que ela nem sabia que existia? Ontem? Porque será que as coisas más que recorda lhe parecem próximas, e as boas distantes?&lt;br /&gt;Nenhum homem sabe a guerra que uma mulher trava sozinha sem armas nem defesas, enquanto os homens, que nunca deixam totalmente de ser crianças, se entregam estupidamente à mais infantil e cruel das brincadeiras, que é a de se tentarem matar uns aos outros por motivos que julgam elevados e por objectivos que consideram honrosos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O pior que acontece com os nossos sentimentos é não sabermos se devemos amar ou odiar. O pior ainda, é quando sentimos o amor e o ódio pela mesma pessoa. Jamais o amor se lhe apagaria da alma por aquele que um dia ali se atirou a ela como predador e acabou prostrado no seu corpo como presa. Jamais o ódio, por ter sido duas vezes traída por ele, se desvaneceu. Uma primeira vez, na distante tarde de Outono em que se foi afastando por aquela estrada até ter desaparecido naquela mesma curva ao fundo, com aquele ar de guerreiro garboso que parte à aventura pelo mundo fora e a deixava a ela ali, como uma sombra no meio da estrada, como uma peça de roupa de todos os dias que se despe para envergar a sinistra roupagem de matar, aquela farda da hedionda cor do esterco. Agora, olhando a mesma curva da estrada lá longe, parece que nunca saiu daqui onde está, durante estes anos todos, como um envelhecido Narciso a mirar a ilusão de uma juventude irremediavelmente perdida. Mas a pior traição foi a segunda, a traição de ter-se ele deixado morrer por lá.&lt;br /&gt;Um amor sem história, o dela. Ele levou a sua história na mochila por aquela estrada fora e por lá ficou; nem os seus ossos, essa pátria por quem foi lutar, lhe devolvera. O corpo dele ficou por lá sem uma praia morna onde pudesse reanimar, e o seu corpo ficou aberto como um golpe de navalha que não cicatrizou nunca.&lt;br /&gt;Muitas vezes acendera ainda a curva orgulhosa do seu seio, muitas vezes iluminara de nudez o seu corpo todo, muitas vezes transformara predadores em presas, mas jamais conseguira fechar aquele golpe aberto desde o dia em que o vira desaparecer naquela curva, de mochila ao ombro sem uma só vez olhar para trás.&lt;br /&gt;E a flecha do arco de ogiva perfeita dos seus seios foi rebaixando a pouco e pouco até eles perderem toda a altivez das catedrais góticas e se acomodarem na forma modesta e acabrunhada do arco abatido dos templos românicos, à medida que a luminosidade do seu corpo se embotava sem mais fulgor que a palidez de uma lua triste.&lt;br /&gt;Levou uma eternidade a retirar os olhos da curva da estrada e a voltar-se para a frente, para a outra curva ainda distante, e sentiu sem sombra de dúvida que nunca haveria de dobrar mais aquela curva da estrada. O seu corpo fechara-se finalmente. A guerra que ela soube que existia quando sentiu o golpe de navalha do abandono, há muito que terminara, mas a guerra que travara desde então, durava até hoje, muitos e muitos anos depois. Porém o seu corpo parecia ter finalmente deixado de lutar.&lt;br /&gt;Que nos perdoem as mulheres se não tivemos coragem. Mas que o seu perdão não se esqueça dos que tivemos coragem, e não usámos a coragem para lutar apenas por elas. Tanta mulher como praias ansiosas pelo mar da nossa bravura e os homens distraídos com guerras!&lt;br /&gt;E ela parada. E a estrada deserta. A estrada entre duas curvas: o passado perdido e o futuro inatingível.&lt;br /&gt;O coração tão sereno e a doce vertigem de quem vai adormecer.O seu corpo caiu em combate, vítima de uma guerra em que não combateu. O seu corpo, como uma praia morna e luminosa que foi, vai agora perdendo toda a luz, e a pouco e pouco vai arrefecendo.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;E a pouco e pouco vai arrefecendo.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5691625468132851547-6019595317961984147?l=episodiosdopos-guerra.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://episodiosdopos-guerra.blogspot.com/feeds/6019595317961984147/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5691625468132851547&amp;postID=6019595317961984147' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5691625468132851547/posts/default/6019595317961984147'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5691625468132851547/posts/default/6019595317961984147'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://episodiosdopos-guerra.blogspot.com/2009/04/estrada.html' title='A Estrada'/><author><name>Manuel Bastos</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08931715969785497183</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/_HoddYLLd75o/TGVwNwmn4aI/AAAAAAAAAiU/KQqkluN1xbw/S220/PhotoContact3.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_HoddYLLd75o/Sfb_DDSO0fI/AAAAAAAAAbM/REiouFli3M4/s72-c/Estrada.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5691625468132851547.post-5336898381229749850</id><published>2009-01-23T05:08:00.000-08:00</published><updated>2009-01-23T14:49:52.945-08:00</updated><title type='text'>A Doença da Memória</title><content type='html'>Para os lados do mar o céu desenha uns fiapos cinzentos por entre os tons ainda quentes do pôr-do-sol, e ele vira-se como se estivesse interessado em aproveitar os últimos alentos de vida da tarde, mas estou em crer que foi um acto reflexo, como se respondesse a um chamamento.&lt;br /&gt;A tarde morre em silêncio, mas o silêncio tinha uma voz. O silêncio tinha a voz do mar. Mas ele ouvia o silêncio por baixo dessa voz. Uma voz fragorosa e depois fervilhante; uma voz materna, que primeiro ralha e depois arrulha. Mas por baixo do silêncio feito dos sons, de todos os sons que povoam a vida, e que não ouvimos porque estamos entretidos a viver, existe o vazio. Ele está a ouvir esse vazio por baixo da vida. O silêncio da própria alma, como um buraco negro numa toalha branca, como um nódoa de morte caído no tecido da vida.&lt;br /&gt;Levanta-se e caminha um pouco, olhando sempre para o lado do mar. Há muito que aprendeu a enfrentar esse chamamento sem voz. Chamamento não, talvez uma atracção, uma tentação; como um poço fundo a fazer vertigens.&lt;br /&gt;Sente as mãos vazias, como se tivesse deixado cair uma ferramenta que agora lhe faz falta. Inúteis, as mãos, balançam ao lado do corpo e os olhos sempre olhando o mar. Sempre, sempre olhando o mar.&lt;br /&gt;Um avião passa rasante junto à rebentação, encaminhando-se para a base de S. Jacinto, e o farol da Barra de Aveiro atira-lhe com um disparo de luz; depois risca a tarde num movimento circular como quem desvia o olhar embaraçado por aquele disparo inútil.&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://1.bp.blogspot.com/_HoddYLLd75o/SXnCJcpADqI/AAAAAAAAAZY/kVzwZ1SF3WY/s1600-h/Doença+da+memória+copy.jpg"&gt;&lt;img style="cursor:pointer; cursor:hand;width: 400px; height: 262px;" src="http://1.bp.blogspot.com/_HoddYLLd75o/SXnCJcpADqI/AAAAAAAAAZY/kVzwZ1SF3WY/s400/Doença+da+memória+copy.jpg" border="0" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5294476304513502882" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;Ele encontra-se agora no chão do passeio, as mãos procurando a arma perdida, rolando sobre si próprio. O buraco de silêncio enche-se de gritos, de explosões e daqueles estalidos que os projécteis fazem quando passam sobre as cabeças dos soldados, mostrando que ainda estamos vivos dado que já passaram quando os ouvimos.&lt;br /&gt;Outro avião, talvez um Fiat a julgar pelo som sibilante da turbina. E ele rasteja sobre a picada procurando camuflar-se atrás do capim. Tragam-me dilagramas que eu rebento com os filhos da puta! Os cartuchos das Kalashes vêm ter acima de mim. Eles devem estar perto… &lt;br /&gt;O estridular de uma gaivota em busca de poiso para passar a noite torna infrutíferos quaisquer esforços para resistir a uma emboscada, e lentamente os sons vão-se desvanecendo até que finalmente se ouve de novo a voz do mar.&lt;br /&gt; O sol deixou um rasto acobreado por sobre as águas e tudo começa a tomar os seus lugares, como se tivesse tocado a recolher e a praia toda se preparasse obedientemente para a noite.&lt;br /&gt;Mete o vigésimo cigarro do dia na boca, acende-o e tira uma passa como quem toma um remédio. Olha mais uma vez o mar. Sabe que agora pode olhar o mar sem receio e sente um alívio enorme ao avaliar a imensidão daquela massa de água que o separa do passado. Não será por muito tempo; um dia ou dois, e de novo aquele vazio lhe fará lembrar que algo de si ficou para trás, como o último olhar de terror do inimigo abatido, como o apelo impotente do camarada de armas que não foi possível resgatar das mãos do inimigo. Então retomará a sua missão inacabada, uma e outra vez até que um dia ele próprio seja abatido neste combate sem quartel; por uma bala perdida, por uma mina traiçoeira, ou simplesmente pela vida.&lt;br /&gt;Levaram quase um ano a fazerem dele um combatente, ensinaram-lhe tudo o que um pacato pedreiro precisava de aprender para se tornar alguém capaz de lutar até ao limite. De matar. E depois, no fim, no prazo de uma semana, esperaram que ele deixasse de ser um combatente, e simplesmente esquecesse, como se tudo não tivesse passado de uma brincadeira inofensiva, e voltasse a ser o pacato pedreiro que fora em tempos, como se a memória de um homem fosse um balão; mais fácil de esvaziar do que de encher.&lt;br /&gt;Talvez a mulher tenha razão, talvez o melhor seja aceitar humildemente que está doente. Mas que sabe uma mulher sobre os perigos de uma emboscada, que sabem estes gajos todos aqui do que é ter que vencer o medo e seguir em frente, sempre, sempre em frente?&lt;br /&gt;O farol da Barra, agora, já noite, parece querer desenhar uma circunferência de luz em redor de si mesmo, mas o foco perde-se na noite infinita. A verdade é que tudo sem excepção se perderá na noite infinita; é uma questão de tempo. Caminhamos todos em direcção à escuridão, à escuridão sideral ou à simples escuridão do corpo, a qual é cada vez mais difícil de iluminar de prazer. Como um mar nocturno. À excepção talvez, de algumas praias de ternura, alheias, inocentes, às escarpas cruéis da nossa memória. Como seria bom, ao menos, o riso senil do esquecimento tão próximo da inocência que nos permitisse aceitar a decadência sem luta. Uma tarde soalheira debaixo da sombra maternal de um castanheiro sem idade e ao longe a família feliz no caleidoscópio do sol. Talvez então, sem remorso nem raiva aceitássemos a doce prepotência divina, como uma mentira piedosa.&lt;br /&gt;Talvez valha a pena, então, ser humilde e aceitar que a memória também pode adoecer, que às vezes um homem não pode levar tudo consigo, tal como nem sempre é possível resgatar um camarada de armas das mãos do inimigo.&lt;br /&gt;Olhou o mar, mais uma vez olhou o mar, mas agora com um sereno cansaço, como se tivesse terminado uma longa viagem.&lt;br /&gt;E a voz da mulher doce e terna devolve-lhe o mundo: - Ó Zé; estamos à tua espera para jantar.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5691625468132851547-5336898381229749850?l=episodiosdopos-guerra.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://episodiosdopos-guerra.blogspot.com/feeds/5336898381229749850/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5691625468132851547&amp;postID=5336898381229749850' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5691625468132851547/posts/default/5336898381229749850'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5691625468132851547/posts/default/5336898381229749850'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://episodiosdopos-guerra.blogspot.com/2009/01/doena-da-memria.html' title='A Doença da Memória'/><author><name>Manuel Bastos</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08931715969785497183</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/_HoddYLLd75o/TGVwNwmn4aI/AAAAAAAAAiU/KQqkluN1xbw/S220/PhotoContact3.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_HoddYLLd75o/SXnCJcpADqI/AAAAAAAAAZY/kVzwZ1SF3WY/s72-c/Doença+da+memória+copy.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5691625468132851547.post-3443415565911349810</id><published>2008-12-21T15:51:00.000-08:00</published><updated>2008-12-21T15:55:50.575-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Moçambique'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Movimento Nacional Feminino'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Guerra Colonial'/><title type='text'>Os Sapatos do Major</title><content type='html'>&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_HoddYLLd75o/SU7W8Q2CuPI/AAAAAAAAAYk/evuV3XJpGgA/s1600-h/Os+Sapatos+do+Major.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5282395743754303730" style="WIDTH: 200px; CURSOR: hand; HEIGHT: 181px" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_HoddYLLd75o/SU7W8Q2CuPI/AAAAAAAAAYk/evuV3XJpGgA/s200/Os+Sapatos+do+Major.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;Pôr um pé à frente do outro; o resto é milagre. Pouca gente está consciente disto: estar de pé e caminhar é uma coisa prodigiosa, aparentemente improvável; sobretudo se for observada de uma cadeira de rodas. É maravilhosa a estabilidade de uma pessoa a caminhar, sem precisar de efectuar cálculos constantemente; para fazer com que a projecção do seu centro de gravidade caia infalivelmente dentro do imaginário polígono de sustentação de geometria extremamente variável, à medida que caminha. Bastam algumas semanas sem podermos caminhar para recearmos que esse dom nos venha a ser retirado para sempre.&lt;br /&gt;Há muito pouca diferença entre caminhar normalmente e voar, na perspectiva de um paraplégico. Só a consciência disso me permitia aceitar o sorriso condescendente das senhoras do Movimento Nacional Feminino que me tratavam como um privilegiado, por me saberem por pouco tempo confinado às limitações da cadeira de rodas.&lt;br /&gt;As senhoras do Movimento Nacional Feminino achavam que nenhuma desgraça era suficientemente grande para um homem, e que os males que nos corrompiam eram apenas dádivas que devíamos agradecer à Divina Providência. Devíamos agradecer por sermos amputados, pois bem poderíamos ser paraplégicos, e estes deveriam estar gratos por não serem tetraplégicos, porém estes últimos só por uma grande ingratidão não se sentiriam felizes por não terem morrido. Mas não se pense que os mortos estavam livres de demonstrar gratidão, pois que se tinham livrado de uma vida de limitações e sofrimento.&lt;br /&gt;Não sejamos injustos com as senhoras do Movimento Nacional Feminino por elas não entenderem que basta uma erupção de acne na ponta do nariz, para um jovem se sentir um mutilado de guerra; é que elas afinal viviam no mesmo país do que nós, tinham o mesmo governo, liam os mesmos jornais, e não me custa admitir que fossem chamadas a frequentar algum curso de caridade cristã onde tudo se resumisse a convencê-las de que nos deveriam fazer sentir gratos por Deus não ter decidido tirar-nos mais alguma coisa, para além do que a guerra já nos tinha tirado.&lt;br /&gt;Quando me pude pôr de pé, e voltei a ver o mundo olhando por cima da cabeça dos outros, como já me tinha habituado havia muitos anos, começava para mim um novo problema: substituir a perna, que a cobarde mina anti-pessoal me tinha tirado à má fila, por um par de canadianas que prolongavam os meus braços até ao chão e que me transformavam numa periclitante tripeça à beira do colapso.&lt;br /&gt;Há um ditado italiano que diz que não há maior felicidade do que termos companhia no infortúnio; se isso é verdade, devo ter sido muito feliz no Hospital de Lourenço Marques, pois não conheço outro lugar no mundo com tanto perneta para me fazer companhia.&lt;br /&gt;Aos domingos uma parte da população vinha visitar os militares feridos em combate, e procurava saber coisas do Norte; era a parte da população que tinha consciência de que algo estava prestes a mudar. Conheci uma outra parte da população: a que achava que a guerra era uma coisa que se passava no distante Cabo Delgado entre a malta de Lisboa e os pretos; nada que uma matança a sério, e depois um apartheid à portuguesa não resolvesse. E depois… E depois havia as senhoras do Movimento Nacional Feminino. Havia qualquer coisa de patético nas senhoras do Movimento Nacional Feminino; qualquer coisa com sabor àquela doce degradação, só detectável no olhar de paciente mortificação das prostitutas dos bares de má fama da periferia das grandes cidades. Olhavam-nos com a distraída simpatia de quem tem por profissão distribuir calor humano em doses calculadas.&lt;br /&gt;Sinto uma certa relutância em confessá-lo, mas era isso justamente que me fascinava nelas. Imaginava-as chegando a casa, cansadas de terem distribuído simulacros de simpatia, arremedos de afecto e até algum carinho bem imitado, e uma vez chegadas a casa, terem dificuldade em exercer as suas relações íntimas com autenticidade; pois que a alternância entre o afecto profissional e o afecto verdadeiro devia traí-las e fazer com que se confundissem, como acontece decerto com as prostitutas em relação aos utentes dos seus serviços e aos seus amantes verdadeiros. Em momentos de maior pendor para o drama, imaginava-as a entregarem-se à realidade das suas insípidas vidas afectivas em que também não recebiam mais do que esse embuste de sentimentos, das pessoas de quem verdadeiramente gostavam, e apetecia-me pegar-lhes fraternalmente nas mãos, o que imaginava ser o correspondente a beijar uma prostituta; algo que subvertesse a relação profissional e criasse um incontrolável contacto humano.&lt;br /&gt;A esposa do Major era suficientemente feia para garantir que um contacto humano, por mais incontrolável que pudesse ser, não viesse jamais a incendiar tentações; mas era muito carente; tinha uma tal soma de carências por aquele corpo abaixo, que isso não a deixou entender aquele meu gesto romântico. E aqueles segundos em excesso durante os quais a minha mão pegou na dela, e que pretendiam passar por um acto paternalista, com uma dose certa de indulgência machista, tipo Hemingway num bar de prostitutas em Havana, foram tomados como um sinal inequívoco de um macho em ebulição hormonal, atormentado pelo primário instinto de acasalamento.&lt;br /&gt;Por essa altura, eu já via o mundo de novo por cima das cabeças dos outros, embora a minha figura de canadianas se assemelhasse a um orangotango desengonçado que caminhava erecto, mas com a ajuda dos longos braços; e que um pijama curtíssimo, e o cônjuge sobrevivo do meu par de botas da tropa, faziam parecer um orangotango, mas com aptidão para a arte circense.&lt;br /&gt;Enquanto tentava iludir a dança de acasalamento da esposa do Major, convenci o Herculano a levarmos a cabo um peditório para adquirir um par de sapatos; um único par, que nós éramos pernetas simétricos e calçávamos o mesmo número; esforço que ele não compreendia, dado que a esposa do Major repetia amiudadas vezes que me poderia ser mais útil do que eu imaginava.&lt;br /&gt;Ao fim de uma semana já não parecia que houvesse uma alma naquele hospital a quem não tivéssemos pedido pelo menos duas vezes para o par de sapatos e a colecta não chegava nem a metade do necessário. Considerei seriamente a prostituição. Sem um sapato eu não poderia sair do hospital, e a utilidade da esposa do Major era seguramente menor que a minha imaginação.O dia seguinte amanheceu normal, nenhuma alteração climática veio alterar o curso dos acontecimentos, nenhuma notícia sobre a guerra veio interferir no meu estado de espírito, e eu preparei-me para a visita das senhoras do Movimento Nacional Feminino. As senhoras vieram, mas a esposa do Major não veio. Veio o cabo enfermeiro. – Ó Furriel Bastos, o Herculano saiu de fim-de-semana mas pediu-me para lhe dar isto. Uma caixa. Um envelope. Uma mensagem. "Espero que gostes. Felizmente o Major calça o mesmo número que nós. Um abraço. Herculano"&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5691625468132851547-3443415565911349810?l=episodiosdopos-guerra.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://episodiosdopos-guerra.blogspot.com/feeds/3443415565911349810/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5691625468132851547&amp;postID=3443415565911349810' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5691625468132851547/posts/default/3443415565911349810'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5691625468132851547/posts/default/3443415565911349810'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://episodiosdopos-guerra.blogspot.com/2008/12/os-sapatos-do-major.html' title='Os Sapatos do Major'/><author><name>Manuel Bastos</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08931715969785497183</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/_HoddYLLd75o/TGVwNwmn4aI/AAAAAAAAAiU/KQqkluN1xbw/S220/PhotoContact3.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_HoddYLLd75o/SU7W8Q2CuPI/AAAAAAAAAYk/evuV3XJpGgA/s72-c/Os+Sapatos+do+Major.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5691625468132851547.post-4211911907574200736</id><published>2008-11-25T12:02:00.000-08:00</published><updated>2008-11-25T12:03:33.748-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Guerra Colonial'/><title type='text'>A Difícil Transferência do Ódio</title><content type='html'>Éramos umas crianças. – Disse José da Fonte.&lt;br /&gt;Os soldados são sempre crianças, Bastos, ainda se ao menos os que nos comandavam fossem homens, mas eram crianças como nós. E os que eram homens não iam para o mato. Lá em Mueda conheceste alguém do quadro, que alinhasse nas operações de canhota nas mãos? Profissionais da guerra que nunca deram um tiro e os que foram para lá ao engano é que lhes guardavam o coiro! – Disse José da Fonte.&lt;br /&gt;Está hoje um dia que me faz lembrar aquele céu de África. Trágico, não era? Um céu trágico aquele, em que de repente, do mais puro azul se desembrulhavam prá'li umas nuvens cor de sangue e rebentava uma tempestade dos diabos que nem dava tempo de tirarmos os ponchos, e ficávamos ensopados num instante. Aquilo era difícil, Bastos; também, se fosse fácil não estaríamos lá nós.&lt;br /&gt;O povo e os filhos do povo é que pagam sempre a conta, não tenhas dúvidas, estejamos em guerra ou estejamos apenas a atravessar uma crise qualquer como agora. Quem paga somos sempre nós. E quando o problema acabar, mudam quem manda, criam uma nova ordem social, ou simplesmente mudam os nomes às coisas para darem a ideia que começou um novo jogo e que os que perderam, perderam e os que ganharam, ganharam: é o princípio do oportunismo. – Disse José da Fonte.&lt;br /&gt;Era um tempo impreciso, esse em que vivíamos; o fim de uma época e o início de outra, não tivemos outro remédio senão ir aprendendo à medida que as coisas se revelavam para nós. Ninguém nos ensinou nada, a não ser odiar os que não nos queriam lá. E depois quando descobrimos que os nossos verdadeiros inimigos eram os que nos usavam como carne pra canhão, tivemos que transferir o nosso ódio. Mas o ódio vicia, Bastos, e não há nada mais difícil do que mudar o objecto do nosso ódio; e não há nada menos digno do que matar só pra não morrer. – Disse José da Fonte.&lt;br /&gt;Bebe, pá, que lá não tinhas deste vinho. Um casqueiro com gorgulho e umas bazucas de Cuca e era um pau; e muita camaradagem, não era? Foi isso que fez de nós irmãos. O medo e a coragem; o tédio e a ansiedade; a solidão e a camaradagem – mas tudo intenso e real. Tão intenso e real como um espinho na carne. Olha: no dia em que foste ferido, chorei; escondi-me lá num canto qualquer, fumei um cigarro e dei por mim a chorar. Lembrei-me que tu costumavas dizer que nós nunca choramos os mortos, choramo-nos a nós mesmos, ou porque antecipamos a nossa própria morte, ou porque nos sentimos mais sós. Lembras-te de dizeres isto? Lembrei-me de ti a disparar para o capim, em cima da Berliet, no dia em que um soldado do teu pelotão rebentou uma mina. Lembras-te? Depois escondi-me na cagadeira a fumar um cigarro, para ninguém me ver chorar.&lt;br /&gt;Tu vieste embora e muita coisa se passou depois, mas sempre nós a gramar a pastilha, ainda por cima tivemos um cabrão dum capitão armado em herói que nos punha no mato dia sim, dia sim e que depois se desenfiou para o Comando enquanto nós continuámos lá a garantir-lhe o subsídio de zona de cem-por-cento, que ele ganhava no ar condicionado enquanto nós foçávamos no mato, quando já devíamos ter ido para um lugar mais calmo. Sabes que pensei em dar-lhe uma carga de porrada quando o encontrasse aqui. Mas como dizia Tertuliano, a vingança dá apenas um prazer momentâneo enquanto o perdão dá um prazer duradouro. Perdoei-lhe a carga de porrada mas não esquecerei que alguns morreram para ele ficar bem-visto junto das chefias militares. Ó Bastos, se fosse fácil não era para nós. – Disse José da Fonte.&lt;br /&gt;E agora, tantos anos depois? Até parece que falo com saudades daquilo, não é? Tenho saudades de mim, Bastos, tenho saudades de nós. Quando não acontecia uma desgraça éramos felizes. Tenho saudades de quando a vida era um milagre. Quando chegávamos todos; quando bebíamos um copo de cerveja morna e cantávamos todos desafinados, e então tu, pá, que cantavas mal como a porra; celebrávamos o dia por ele ter acabado com vinte e quatro horas. Para muitos, os dias acabaram a meio e nós ficávamos mais sós, como tu dizias.&lt;br /&gt;Éramos umas crianças e o que fez a guerra de nós? Fez-nos homens? Acho que ficámos sem idade, Bastos. Na guerra os homens ficam sem idade. Crianças envelhecidas ou velhos prematuros. Por isso é que sentíamos a vida como um milagre, porque a vida é precária, Bastos, e nós aprendemos isso antes do tempo. Lá, ao menos, morríamos de coisas simples: um tiro, uma mina, um estilhaço de morteiro. Agora morremos de coisas com nomes complicados: nefropatia túbulo-intersticial, angiossarcoma hepático, ou então que tal uma neoplasia broncopulmonar malígna? Vamo-nos degradando até as pessoas que gostam de nós ansiarem por que os deixemos em paz. A vida não é precária, a vida é altamente improvável. – Disse José da Fonte.&lt;br /&gt;Neoplasia broncopulmonar malígna. Eu acho que devia ter morrido jovem, Bastos, para ser recordado com o desconsolo de me saberem desaparecido com uma vida inacabada; para que sentissem a falta de todas as realizações que ainda esperavam de mim; para que se recusassem a aceitar a minha morte como uma coisa natural e odiassem alguém por eu ter morrido, fosse quem fosse – que arranjassem maneira de encontrar o verdadeiro culpado pela minha morte; ou ao menos, pá, para que uma mulher bela e jovem vivesse chorando com uma foto minha junto ao peito; ou se tudo isso fosse pedir demais, para que sobre a minha sepultura não exibissem para sempre o retrato de um velho decrépito.&lt;br /&gt;Neoplasia broncopulmonar malígna. Um dia destes e muito em breve, Bastos, chegará um dia para mim que não terá vinte e quatro horas. Ninguém ouvirá o estampido de uma mina, ninguém se esquecerá de si mesmo, para gritar: o Zé da Fonte está ferido! Ninguém se atirará para o chão em meu redor para fazer uma barreira de fogo. Nenhum enfermeiro se arriscará corajosamente, vindo a correr desarmado para me tentar salvar a vida. Chegará apenas uma notícia pelo telemóvel a dizer que eu bati as botas e será um alívio para as pessoas que gostam de mim. Será que tu, Bastos, te vais esconder num sítio qualquer a fumar um cigarro, para que não te vejam chorar, porque a minha morte te aterroriza, porque fatalmente um dia será a tua vez? Não, Bastos, deixa-me acreditar que chorarás nesse dia como se eu tivesse tombado em combate, deixa-me acreditar que nesse dia beberás a tua cerveja morna sem cantares com a tua voz esganiçada, porque nesse dia não vieram todos, deixa-me acreditar que sentirás um ódio de morte mesmo que não saibas ao certo por quem, e que te apetecerá saltar para cima de uma Berliet a gritar: Venham cá filhos da puta, enquanto despejas o carregador da G3 no capim.&lt;br /&gt;Bebe mais um copo, Bastos, que deste vinho não tínhamos lá, e deixa-me acreditar que nesse dia chorarás apenas por te sentires mais só.&lt;br /&gt;– Disse José da Fonte, que, do que quer que morra e onde quer que morra, morrerá sempre em combate.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5691625468132851547-4211911907574200736?l=episodiosdopos-guerra.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://episodiosdopos-guerra.blogspot.com/feeds/4211911907574200736/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5691625468132851547&amp;postID=4211911907574200736' title='1 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5691625468132851547/posts/default/4211911907574200736'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5691625468132851547/posts/default/4211911907574200736'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://episodiosdopos-guerra.blogspot.com/2008/11/difcil-transferncia-do-dio.html' title='A Difícil Transferência do Ódio'/><author><name>Manuel Bastos</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08931715969785497183</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/_HoddYLLd75o/TGVwNwmn4aI/AAAAAAAAAiU/KQqkluN1xbw/S220/PhotoContact3.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5691625468132851547.post-8083648845879938655</id><published>2008-08-06T10:43:00.001-07:00</published><updated>2008-08-06T10:51:41.303-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Guerra'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Stress Pós traumático'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Nazaré'/><title type='text'>História de Amor com uma Guerra ao Fundo</title><content type='html'>Não, meu amor, não vou contar-te agora porque não posso ouvir essa música; agora acabaste de chegar da praia onde a tua silhueta vista daqui parecia uma criança sonhando com uma grande viagem. Põe uma canção que não faça sentido nenhum, uma canção que ganhe sentido apenas por ter sido ouvida quando eu ainda tinha na memória a tua imagem de criança sonhando.&lt;br /&gt;Não, meu amor, não me obrigues a falar disso agora, não é nenhum segredo, é que ainda somos ambos jovens e se eu começar a falar disso vou envelhecer dezenas de anos e não vais querer um velho a teu lado enquanto os teus sonhos ainda são tão inocentes.&lt;br /&gt;Vês esta luz amarela que vem do mar? Uma luz impossível mas que transforma esta hora do dia numa ampola de âmbar que segura o tempo para nos dar oportunidade de sermos felizes. É preciso alimentar a ilusão de que o tempo espera por nós ou nunca sentiremos prazer. Mais tarde, quando os nossos corpos estiverem cansados e os teus olhos ainda estiverem estremunhados de amor já todas as músicas serão possíveis.&lt;br /&gt;Há pouco a luz era ainda limpa e tu corrias sobre o areal, e depois paravas, e eu seguia-te por entre os desenhos da varanda, e o tempo parecia abrandar. É que eu meço o tempo com as batidas do coração, e ver-te daqui sobre a praia punha-me no coração uma paz assim tão grande, porque toda a praia era luz e tu eras apenas luz sobre a praia. Uma brincadeira do sol só para que tu parecesses uma criança sonhando com uma grande viagem.&lt;br /&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_HoddYLLd75o/SJnjmlDjyZI/AAAAAAAAAPg/s5uUduuCx5U/s1600-h/Nazar%C3%A9+-+Fim+de+tarde1.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5231462694089116050" style="CURSOR: hand" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/_HoddYLLd75o/SJnjmlDjyZI/AAAAAAAAAPg/s5uUduuCx5U/s400/Nazar%C3%A9+-+Fim+de+tarde1.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;Depois a tarde ficou azul – céu e mar. E tu, mais nada. Tirei uma foto, quase nada ficou na foto, só azul. A seda da luz poente e a longa toalha das águas. De vez em quando alguém de muito longe deveria puxar a toalha porque uma franja de espuma enrolava e desenrolava junto aos teus pés, e eu tinha um pensamento apenas: um dia vou lembrar-me que fui feliz aqui.&lt;br /&gt;Ver-te daqui enquanto a luz da tarde amarelecia, era como pintar um quadro com o olhar. Não sei se era a praia que estava deserta se era eu que só te via a ti. Devia correr um ventinho do lado do promontório de onde D. Fuas ia caindo ao mar, porque o teu cabelo parecia desalinhado por uma carícia, depois viraste-te para aqui e vieste embora como se viesses atraída pelo meu olhar.&lt;br /&gt;Saíste da praia como quem acorda devagar, e nasceu em mim uma urgência inexplicável de ficar a sós contigo, de ficar na intimidade absoluta dos nossos corpos, de comungar o síncrono prazer dos nossos gestos, de solver num só, as distintas essências dos nossos dois seres.&lt;br /&gt;Agora que ainda sentes o mar arfando no teu peito, não ponhas essa música, que despertará ecos que ainda ressoam em mim, ao fundo, muito ao fundo, como uma nuvem negra que a aragem do mar vai afastando lentamente.&lt;br /&gt;Talvez um dia eu me sente assim a teu lado e te conte a ti o que impus a mim mesmo esquecer. Quando eu era um outro e vivia uma outra vida num outro mundo. Então alguém inocentemente pôs uma música a tocar, uma música que nessa altura ainda nada significava para mim, mas que se impregnou dos silêncios e dos gritos, das longas solidões e das mitigadas alegrias. Uma música que se impregnou do sofrimento do próprio Tempo que penava dolorosamente e envelhecia sem avançar. Essa música devolve-me as vozes de amizades de sangue e de ódios viscerais. Essa música é o estertor do Tempo à beira do colapso. Agora deixa que isso permaneça esquecido como uma carta perdida no fundo de uma gaveta de um móvel antigo no sótão da casa de um avô há muito falecido.&lt;br /&gt;Talvez um dia eu me sente assim a teu lado e te conte tudo, palavra por palavra, como se tivesse acontecido a outro, como se fosse um livro que li enquanto criança, um breve pesadelo que assombrou a minha infância. Mas tenho que estar preparado, porque pode acontecer-me que alguma antiga lágrima não chorada venha a intrometer-se na conversa. E então, poderás pôr essa música enquanto bebermos pelo mesmo copo e fumarmos o mesmo cigarro; mas nessa altura teremos uma longa história de amor e já nada nos poderá roubar todo o prazer que tivemos.&lt;br /&gt;Mas neste momento, enquanto a nossa história de amor é ainda muito jovem, deixa-me olhar-te em silêncio ou então, ao som de uma música ainda sem significado nenhum, como a banda sonora de um filme que acompanha as imagens sem darmos por ela; de modo a que fique gravada apenas no nosso subconsciente para que um dia ao ouvi-la de novo nos sintamos repentina e incompreensivelmente felizes.&lt;br /&gt;Agora, meu amor, que nada mais exista para além de ti; que eu só veja a luz do céu que dura nos teus olhos, que eu só ouça o arfar do mar que persiste no teu peito, e ao fundo, muito ao fundo, que eu ouça apenas o rumor das ondas sobre a praia, como o fragor de uma batalha distante, disputada entre povos desconhecidos; uma guerra fútil qualquer onde nunca combati, com mortos e feridos que nunca conheci, e cujo sofrimento não perturbe o meu egoísmo de querer ser feliz.&lt;br /&gt;Agora deixa que tudo pareça uma intempérie distante, imaterial e inofensiva, enquanto saboreio o tangível e doce aconchego do teu corpo, enquanto partilhamos essa onírica vertigem que só as almas inocentes sentem antes das grandes viagens.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5691625468132851547-8083648845879938655?l=episodiosdopos-guerra.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://episodiosdopos-guerra.blogspot.com/feeds/8083648845879938655/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5691625468132851547&amp;postID=8083648845879938655' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5691625468132851547/posts/default/8083648845879938655'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5691625468132851547/posts/default/8083648845879938655'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://episodiosdopos-guerra.blogspot.com/2008/08/histria-de-amor-com-uma-guerra-ao-fundo.html' title='História de Amor com uma Guerra ao Fundo'/><author><name>Manuel Bastos</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08931715969785497183</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/_HoddYLLd75o/TGVwNwmn4aI/AAAAAAAAAiU/KQqkluN1xbw/S220/PhotoContact3.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_HoddYLLd75o/SJnjmlDjyZI/AAAAAAAAAPg/s5uUduuCx5U/s72-c/Nazar%C3%A9+-+Fim+de+tarde1.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5691625468132851547.post-7635604520165736707</id><published>2008-02-04T10:16:00.000-08:00</published><updated>2008-12-10T07:15:14.968-08:00</updated><title type='text'>A Dor Fantasma</title><content type='html'>Ó Manuel (a minha mãe pronunciava sempre todas as sílabas do meu nome) está ali uma senhora que quer falar contigo.&lt;br /&gt;Eu fui de canadianas até à sala e a senhora levantou-se e desatou a pedir desculpas numa torrente de palavras que não me dava hipótese de falar.&lt;br /&gt;- E o meu home' chama-me tola, aquele bêbado diz qu' isto é maluqueira minha. E mostrou a mão a que faltava o polegar. – Qu' eu não devia vir incomodá-lo. Mas disseram-me q' o senhor tinha ficado sem uma perna em África e eu tinha que vir cá. Não estou nada maluca 'tão não?&lt;br /&gt;Ainda o pó não tinha assentado bem na picada, e o Lemos para o enfermeiro Costa: – Eu sinto as minhas pernas… eu não fiquei sem as pernas, pois não, Costa? E nós a segurarmos o soluço na garganta.&lt;br /&gt;Ainda nesse mesmo dia, no Hospital do mato em Mueda, o cirurgião, num exercício didáctico de psicoterapia, a explicar-me a mim que o que eu sentia era psicológico, que o fenómeno se devia ao facto de o amputado não aceitar a mutilação e isso gerar alucinações, induzindo na imaginação a presença do membro perdido. Que a dor que eu sentia era um sonho, era o desejo da preservação da integridade anatómica do corpo. E o cabo enfermeiro: - Ó furriel, isso são só as dores fantasmas, 'tá pe'ceber?&lt;br /&gt;- É assim como se tirássemos daí essa cama, 'tá pe'ceber? Depois carregávamos na pêra e lá dentro tocava à mesma a campainha a dizer “cama 6”. 'Tá pe'ceber?&lt;br /&gt;Ali, na sala, sentada à minha frente, a senhora de olhos muito abertos, brilhantes de alegria. Eu a comparar o polegar que lhe faltava com a cama do hospital do mato e ela sem perceber nada, só dizia: -Obrigado. Obrigado. Obrigado. E a minha mãe de olhos comovidos a segurar o soluço na garganta.&lt;br /&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_HoddYLLd75o/R6dZAiTxAAI/AAAAAAAAAKo/3YsW2uKx5HE/s1600-h/Alemanha_Hospital+Militar_Mini-golf.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5163193363548143618" style="CURSOR: hand" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/_HoddYLLd75o/R6dZAiTxAAI/AAAAAAAAAKo/3YsW2uKx5HE/s400/Alemanha_Hospital+Militar_Mini-golf.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;Todos os amputados sabem que não é um distúrbio psicológico. De facto o nosso cérebro é enganado pela alteração anatómica do corpo, dado que continua a receber, através do sistema nervoso residual aquilo que este está programado para lhe transmitir após um traumatismo brutal como aquele: dor. Tal e qual como a luz que se acendia no hospital de Mueda a dizer "cama 6. Tirassem ou não tirassem aquela cama, diria sempre "cama 6", e para nós o pé também continuava ali, invisível, a doer,&lt;br /&gt;O Luciano, no Anexo do Hospital Militar em Lisboa, tinha uma explicação mais transcendente. Sentir a perna amputada era a prova evidente que tínhamos uma alma. Uma parte do corpo tinha desaparecido, mas nós sentíamos o pé na mesma porque, como não tínhamos morrido, a alma continuava íntegra, com pé e tudo.&lt;br /&gt;Eu, no meu insensível sarcasmo de ateu, costumava adoptar esta explicação do Luciano, por me parecer a mais poética, e explicava às pessoas que me viam caminhar de uma forma quase escorreita, que tudo se devia ao facto de a parte da alma correspondente à perna se encontrar agora dentro da prótese, tornando-a aos olhos de deus, tão humana como qualquer criatura divina. E a minha mãe, mortificada de temor cristão segurava mais uma vez o soluço na garganta.&lt;br /&gt;Muitos soluços teve a minha mãe que segurar na garganta desde aquela noite fria de inverno em que me viu partir de fardeta verde no corpo e boina basca de fitas a esvoaçar ao vento, como dois longos lenços, um verde, outro vermelho, a despedirem-se dela; até ao dia em que me viu chegar de canadianas e com a perneira das calças vazia. Segurava o soluço, abafava a dor, calava a desgraça, para que a minha avó, na sua cândida senilidade, não sofresse também, desnecessariamente.&lt;br /&gt;Quando se fala da guerra colonial, poucas vezes se fala da outra guerra; a outra guerra travada sem tréguas, nas aldeias e nos campos, pelas mães portuguesas; impotentes, sem amparo nem consolo de uma pátria que pouco lhes dava e as deixava assim a sofrer, à distância de meio mundo dessa parte de si mesmas que lhes havia amputado; carne da sua carne, sangue do seu sangue, e já agora, alma da sua alma.&lt;br /&gt;As mães portuguesas também sabem que é possível sentir a dor de algo que nos é arrancado e que persiste para além do corpo, para além da vista, para além do entendimento; não como um distúrbio psíquico, não como um truque de electricidade, não como uma metafórica extensão da alma; nem sequer essa dor que o nosso sistema nervoso persiste em manter real apesar de o órgão que dói já não existir; mas uma outra dor, que uma vida inteira não sei se terá dado para nos ajudar a perceber, e que agora felizmente, em tempo de paz, só com um exercício de imaginação conseguimos conceber. Essa dor que só uma mulher podia sentir, por saber que o ser que se gerou do seu ser, no único milagre possível, o improvável milagre da vida; disputava, em paragens cuja distância não entendia, o jogo mais radical e definitivo e se entregava ao ritual mais macabro e obsceno, de braço dado com a Morte. Essa dor de sentir a dor de quem se ama, não como alguém que nos pertence, mas como alguém que emana de nós, que só o mistério dos afectos maternos mais uterinamente íntimos mantém a latejar, apesar da distância, apesar do silêncio, apesar da ignorância. Essa fantasmática dor, como um flamejante e indestrutível cordão umbilical.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5691625468132851547-7635604520165736707?l=episodiosdopos-guerra.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://episodiosdopos-guerra.blogspot.com/feeds/7635604520165736707/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5691625468132851547&amp;postID=7635604520165736707' title='3 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5691625468132851547/posts/default/7635604520165736707'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5691625468132851547/posts/default/7635604520165736707'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://episodiosdopos-guerra.blogspot.com/2008/02/dor-fantasma.html' title='A Dor Fantasma'/><author><name>Manuel Bastos</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08931715969785497183</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/_HoddYLLd75o/TGVwNwmn4aI/AAAAAAAAAiU/KQqkluN1xbw/S220/PhotoContact3.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_HoddYLLd75o/R6dZAiTxAAI/AAAAAAAAAKo/3YsW2uKx5HE/s72-c/Alemanha_Hospital+Militar_Mini-golf.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5691625468132851547.post-3163096532310283420</id><published>2008-01-08T10:07:00.000-08:00</published><updated>2009-11-01T15:38:09.926-08:00</updated><title type='text'>Saudade de Azul</title><content type='html'>O médico pra mim: Ó senhor Sousa, o meu amigo tem que ter coragem.&lt;br /&gt;Que sabe aquele gajo de coragem? E a Etelvina: Ó Zé, no podes pensar assim, no podes pensar assim.&lt;br /&gt;A minha vida parece um dia de chuva na praia e as pessoas só complicam. Eu só lá fui pra pedir uns remediozitos pra dormir e o raio do médico: O Amigo ouve vozes? E eu cá pra mim: Vai-te fornicar, eu ouço o raio que te parta.&lt;br /&gt;Este gajo e a minha mulher fazem-me lembrar o furriel na picada do Chindorilho a agitar a G3 no ar, cheio de cisma, e a mandar a gente avançar debaixo de fogo. E eu cá pra mim: Vai-te fornicar, que eu sou pedreiro, vim prá'qui à força. A verdade é que ele lerpou com uma mina e eu estou inteiro. Durmo mal, mas estou inteiro.&lt;br /&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_HoddYLLd75o/R6iI4yTxABI/AAAAAAAAAKw/AbS4PDcrWCI/s1600-h/Saudade+de+Azul.jpg"&gt;&lt;img style="CURSOR: hand" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5163527481939001362" border="0" alt="" src="http://3.bp.blogspot.com/_HoddYLLd75o/R6iI4yTxABI/AAAAAAAAAKw/AbS4PDcrWCI/s400/Saudade+de+Azul.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;A minha vida parece uma tarde de chuva na praia, a baba da chuva a escorrer na pala da barraca e as gaivotas murchas no areal deserto. E eu sentado a fumar um cigarro e a olhar pra ontem. Às vezes chovia assim em Moçambique mas nós nunca parávamos por causa disso. Porque havia eu de ir embora daqui? – Ó Zé, anda embora que vai chover. E eu cá pra mim: Vai-te fornicar. Que vou eu fazer para casa? Um gajo casa com uma mulher jeitosa e a pouco e pouco ela fica seca como as palhas, e não tarda nada ficamos com a impressão que nos distraímos e casámos com a sogra.&lt;br /&gt;Depois aquele gajo, armado em psiquiatra pergunta-me se ouço vozes. Claro que ouço vozes. Ainda ouço o furriel de G3 no ar: Tá andar! Tá andar! Vamos proteger o enfermeiro. E eu: Vai-te fornicar que eu sou pedreiro, vim prá'qui à força. Depois fiquei a vê-lo de pernas desfeitas no meio da picada e deu-me pena.&lt;br /&gt;Volta e meia a mulher chateia-me, que eu não ando bem e que devia pedir ajuda. Ela quer dizer que eu preciso de ir ao psiquiatra, e eu pra ela: Eu sei bem o que tenho, ou melhor dizendo, o que não tenho, o que perdi. Ninguém me pode dar o que perdi, percebes. - Ó Zé, no podes pensar assim, no podes pensar assim.&lt;br /&gt;Na verdade eu não sei dizer o que perdi. Sei que perdi muito, porque dantes a minha vida era como um dia de praia cheio de sol, com as gaivotas a voar no céu azul cheio de luz. Agora, não sei, talvez seja da idade. Dá-me a ideia que passei toda a minha juventude na guerra. Ao menos o furriel veio sem uma perna mas esteve lá apenas uns três meses, no máximo.&lt;br /&gt;Depois cheguei aqui e o meu pai: Ó Zé, olha que dizem por aí que a Etelvina não te respeitou. Eu devia ter dado de frosques nessa altura mas não tive coragem. "Ó senhor Sousa, o meu amigo tem que ter coragem" como diz o outro. Mas eu fiquei a olhar para ontem e ela parecia-me… sei lá, parecia-me uma gaivota murcha e eu tive pena dela, tal como tive pena do furriel aos gritos no meio da picada do Chindorilho.&lt;br /&gt;Eu sou pedreiro. É o que eu sou. Tal como o meu pai e o meu avô; não nasci pra ser soldado e andar aos tiros, e aquilo mexeu comigo. Mas esta gente não percebe.&lt;br /&gt;Se quero ficar assim sozinho na barraca da praia num dia de chuva, a fumar um cigarrito, o que é que tem demais? As gaivotas murchas, a babugem da chuva na pala, os pingos a fazerem furinhos na areia e o mar bravo, o mar agitado como eu à noite. O mar também nunca dorme. Estou a ver o médico a perguntar-lhe se ouve vozes.&lt;br /&gt;Claro que ouço vozes. Ouço o furriel a dizer: Ó Sousa, tá andar, estás borrado com medo pá. E eu cá pra mim: Vái-te fornicar que eu sou pedreiro como o meu pai e o meu avô, não nasci para andar aos tiros.&lt;br /&gt;A Etelvina ainda voltou a faltar-me ao respeito mais umas quantas vezes; eu sei, porque ela saía de casa de manhã como uma gaivota murcha e chegava à tarde alvoroçada como uma garnisé acabada de galar. Mas isso foi antes de ficar parecida com a minha sogra. Agora já não há problema, agora já ninguém lhe pega. Mas eu deixei de conseguir dormir e só queria um remédio, mas o raio do médico começou a dizer que eu sofria de uma coisa com um nome complicado derivado a ter andado aos tiros em África. Eles acham todos que eu vim de lá cacimbado, traduzindo por miúdos, mas eu quero que eles se forniquem.&lt;br /&gt;Às vezes dou pela Etelvina na cozinha a abanar a cabeça e a olhar para mim quando me sento à frente do microondas para ver o telejornal ou quando tento aquecer a sopa na televisão; mas que tem de mais? Ela tem os dois aparelhos na cozinha ao lado um do outro, e eu sou um bocado distraído, mais nada. Às vezes pego no telecomando para fazer um telefonema ou no telemóvel para mudar de canal mas isso é porque não me dou com estas tecnologias de agora, aquilo para mim é tudo igual, e ela a abanar a cabeça…&lt;br /&gt;- Põe os olhos no nosso Mário, a combater em Timor e sempre tão cheio de coragem. E mostra-me a foto do catraio com aquele nariz curto, tão parecido com o patrão dela. Demasiado parecido com o patrão dela. Eu quero que eles se forniquem todos. A combater, a combater quem? Algum deles alguma vez ouviu uma Kalash, uma costureirinha, um morteiro 122? Eles sabem o que são minas e fornilhos? Está tudo muito certo, sim senhor, mas o catraio foi pra lá por causa do guito e agora esta gaja fala dele como um herói e mostra-me a foto com aquela tromba curta a lembrar-me o amante.&lt;br /&gt;Eu sei poucas coisas é verdade, sou apenas um pedreiro, mal sei escrever e não percebo nada de políticas, mas sei que não é a missão que entregam a um homem que faz dele um herói mas sim a forma como ele se entrega à sua missão. É por isso que às vezes fico assim a olhar pra ontem. É por isso que ainda ouço a voz do furriel na picada a chamar. E o cabo enfermeiro com tanto medo como eu mas a tratar do ferido debaixo de fogo.&lt;br /&gt;E o mar bravo. O mar tão bravo. Sempre inquieto dia e noite. Um mar que ouve vozes como eu. E as gaivotas pousadas, apeadas, no meio do areal ensopado e deserto. Não têm para onde ir como eu. Almas inquietas, corpos murchos. Um dia de chuva cinzento, com saudade de azul.&lt;br /&gt;Como eu.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5691625468132851547-3163096532310283420?l=episodiosdopos-guerra.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://episodiosdopos-guerra.blogspot.com/feeds/3163096532310283420/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5691625468132851547&amp;postID=3163096532310283420' title='2 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5691625468132851547/posts/default/3163096532310283420'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5691625468132851547/posts/default/3163096532310283420'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://episodiosdopos-guerra.blogspot.com/2008/01/saudade-de-azul.html' title='Saudade de Azul'/><author><name>Manuel Bastos</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08931715969785497183</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/_HoddYLLd75o/TGVwNwmn4aI/AAAAAAAAAiU/KQqkluN1xbw/S220/PhotoContact3.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_HoddYLLd75o/R6iI4yTxABI/AAAAAAAAAKw/AbS4PDcrWCI/s72-c/Saudade+de+Azul.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5691625468132851547.post-5070247550656461200</id><published>2007-11-08T11:37:00.000-08:00</published><updated>2008-12-10T07:15:15.520-08:00</updated><title type='text'>A Irreverência do Meu Pé Esquerdo</title><content type='html'>- Poque tens o pé no ar?&lt;br /&gt;Acordo para aquela voz de criança e para aqueles olhos como dois lagos negros ávidos de luz e estou um momento para tentar entender a pergunta. E ela repete – Poque tens o pé no ar? Olho para um lado e para o outro como fazemos sempre que uma pergunta difícil nos confronta com a nossa ignorância, mas como também é costume nestas ocasiões, ninguém parece disponível para me ajudar. Olho estupidamente para o pé, de biqueira no ar, como se olhando para ele a inspiração viesse em meu auxílio e sorrio, o que sempre constituiu a melhor forma de demonstrar o próprio embaraço.&lt;br /&gt;- Põe o pé pa baixo!&lt;br /&gt;Há confrontos com a realidade que nos deixam nus em público, sobretudo quando somos apanhados de surpresa por estarmos com a cabeça noutro lado… Tão longe… Estava tão longe. O Sol tinha apenas começado a dissipar a neblina nos jardins do Bundeswehr Krankenhaus em Hamburgo (que nós aporteguesámos para Bom-de-Ver Cracanholos) e eu rastejava sobre a relva para tentar fotografar os coelhos que haveriam de sair das tocas para ver o Sol nascer.&lt;br /&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_HoddYLLd75o/RzNmvhR9PyI/AAAAAAAAAIE/jEiUSLFUJt0/s1600-h/Alemanha_Hospital+Militar-01.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5130557367078698786" style="CURSOR: hand" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/_HoddYLLd75o/RzNmvhR9PyI/AAAAAAAAAIE/jEiUSLFUJt0/s400/Alemanha_Hospital+Militar-01.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;- Não! Respondo eu, pondo uma cara de exagerada contrariedade, e a menina abriu ainda mais os olhos e virou-se meditativa para o meu pé esquerdo, que continuava teimosamente empinado.&lt;br /&gt;Para poder rastejar à vontade sobre a relva eu deixara a prótese e a canadiana equilibradas uma na outra, talvez inspirado no método que usávamos na tropa para pôr as armas de cano para cima num feixe em pirâmide a que chamávamos pitorescamente "ensarilhar armas". Não sei qual das duas coisas mais interessava aos alemães que já constituíam um público considerável nas janelas do hospital, cracanholos para os portugueses; se o ensarilhar armas da minha prótese com a canadiana se a figura altamente suspeita, deitada sobre a relva, de pijama e de máquina fotográfica em punho, apontada para coisa nenhuma, à espera que os coelhos saíssem da toca.&lt;br /&gt;Enquanto a minha teimosia em não pôr o pé para baixo aumentava a indignação da menina dos olhos negros ali à minha frente; a minha teimosia em fotografar os coelhos aumentava o assombro dos alemães, na minha memória.&lt;br /&gt;-Poque é que no pões o outo pé assim?&lt;br /&gt;-Porque não gosto tanto do outro pé. O rosto da criança abriu-se num sorriso de felicidade típico do género humano, quando finalmente alguém dá mostras de sensatez numa conversa a dois, o que no tolerante critério de uma criança sobre o que seja a sensatez, não tem um sabor especialmente gratificante.&lt;br /&gt;-Deixa o senhor em paz! E lá vão aqueles olhos argutos sempre focados na biqueira irreverente do meu pé esquerdo.&lt;br /&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_HoddYLLd75o/RzNi1BR9PxI/AAAAAAAAAH8/bwaT7svZWmo/s1600-h/Alemanha_Hospital+Militar_Coelho.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5130553063521468178" style="CURSOR: hand" alt="" src="http://3.bp.blogspot.com/_HoddYLLd75o/RzNi1BR9PxI/AAAAAAAAAH8/bwaT7svZWmo/s400/Alemanha_Hospital+Militar_Coelho.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;Dando o assunto sobre o meu pé esquerdo por definitivamente sanado o Sol abriu finalmente, nos jardins algo sombrios do Hospital Militar de Hamburgo e um coelho aparece timidamente à entrada da toca.Dentro de minutos sou rodeado de coelhos que fotografo incessantemente, imaginando que por essa altura os alemães já tenham entendido o meu propósito e se tenham abstido de chamar alguém para me levar em segurança para o serviço de psiquiatria numa camisa-de-forças.&lt;br /&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_HoddYLLd75o/RzNnbhR9PzI/AAAAAAAAAIM/u5_-40RZfsI/s1600-h/Alemanha_Hospital+Militar_Coelhos.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5130558122992942898" style="CURSOR: hand" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/_HoddYLLd75o/RzNnbhR9PzI/AAAAAAAAAIM/u5_-40RZfsI/s400/Alemanha_Hospital+Militar_Coelhos.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;Agora sentada ao colo da mãe; ora inclinando a cabeça para um lado, ora para o outro, como se quisesse estudar o problema do meu pé esquerdo por todas as perspectivas possíveis; a criança ainda não me parece completamente satisfeita com a conclusão que o assunto teve.&lt;br /&gt;Mas satisfeito estava eu, recordo-me bem, e com um sorriso de rara felicidade, com a tarefa de fotografar coelhos ao nascer da aurora e de surpreender os soturnos alemães com a minha dedicação às causas da arte; sorriso que se transformou numa exaltação triunfante, quando ao levantar-me e ao calçar a prótese; os alemães um a um, da imensa fachada do hospital, começaram a bater palmas até constituir uma ovação verdadeiramente entusiasta.&lt;br /&gt;-O senhor que está só pra mostrar a prótese nova pode entrar que o senhor doutor atende-o já.&lt;br /&gt;-Sabes? Diz a menina, que veio a correr no meu encalço, fugindo à mãe -Sabes poque é que pões o pé assim? Poque tu és mas é um gande vaidoso.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5691625468132851547-5070247550656461200?l=episodiosdopos-guerra.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://episodiosdopos-guerra.blogspot.com/feeds/5070247550656461200/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5691625468132851547&amp;postID=5070247550656461200' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5691625468132851547/posts/default/5070247550656461200'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5691625468132851547/posts/default/5070247550656461200'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://episodiosdopos-guerra.blogspot.com/2007/11/irreverncia-do-meu-p-esquerdo.html' title='A Irreverência do Meu Pé Esquerdo'/><author><name>Manuel Bastos</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08931715969785497183</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/_HoddYLLd75o/TGVwNwmn4aI/AAAAAAAAAiU/KQqkluN1xbw/S220/PhotoContact3.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_HoddYLLd75o/RzNmvhR9PyI/AAAAAAAAAIE/jEiUSLFUJt0/s72-c/Alemanha_Hospital+Militar-01.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5691625468132851547.post-8424687876187201413</id><published>2007-06-03T14:02:00.000-07:00</published><updated>2008-12-10T07:15:15.845-08:00</updated><title type='text'>Encontro de Veteranos</title><content type='html'>Para onde vão os sonhos quando morrem?&lt;br /&gt;Para onde vão todos os projectos abandonados, todas os desejos e ilusões que um dia eram certezas e de que agora nem nos lembramos já? Quem souber que diga.&lt;br /&gt;Há dias em que o passado nos visita como um intruso que surge do nada, quando uma alegria súbita e incompreensível nos ilumina todo o ser ou uma tristeza inesperada nos deixa de repente na mais dolorosa sombra.&lt;br /&gt;Porém, há dias que somos nós que vamos ao encontro do passado como quem decide entrar no sótão da casa velha dos nossos avós, pela razão tão simples de o sótão ter permanecido fechado tanto tempo que sentimos curiosidade em saber o que lá se guarda ainda.&lt;br /&gt;Uma ave qualquer, de que não sei o nome e que nada tem a ver com isto, crocita um lamento tristíssimo para os lados do Espírito Santo e o arfar de um helicóptero que deve dirigir-se para os HUC traz-me de volta, no mesmo instante, ressonâncias de África.&lt;br /&gt;Ao cimo da encosta, as árvores inquietas com o vento. No andar de baixo os vizinhos a rirem de vez em quando. E o pássaro crocita, crocita. Pode haver mais tristeza no canto de uma ave sem nome do que no coração de uma viúva.&lt;br /&gt;O carro do lixo desce a calçada da antiga estrada do Tovim num estardalhaço despropositado que me impede de pensar seja no que for durante cerca de dois minutos. Só consigo relembrar os rostos, os sorrisos e algumas frases entrecortadas que ressuscitaram, à mesa do jantar, uma parte de mim que já havia morrido há muito.&lt;br /&gt;Afinal aquela mão no meu braço enquanto o helicóptero não vinha, era o enfermeiro Costa. Eu a julgar que tinham demorado horas a evacuar-me e não foram muito mais de vinte minutos.&lt;br /&gt;Eu tinha frio. Eu tinha tanto frio e afinal o sol fritava os miolos dentro da cabeça de todos os soldados.&lt;br /&gt;E não havia nenhuma música dos Doors enquanto o helicóptero descia na picada e no entanto, durante todos estes anos eu recordo a voz do Jim Morrisson a dizer-me:&lt;br /&gt;"Isto é o fim, meu belo amigo. Isto é o fim, meu único amigo, o fim. Custa deixar-te ir, mas não voltarás a acompanhar-me. É o fim do riso e das mentiras piedosas. É o fim das noites em busca da morte. Isto é o fim." E uma guitarra de cordas tangidas como nervos doridos ficou a soar para sempre dentro do meu peito.&lt;br /&gt;A latoada do carro do lixo ao longe, a tosse convulsa do helicóptero dirigindo-se ao hospital e o canto do pássaro lúgubre são agora também a única música possível, porém, talvez um dia eu os recorde como doces acordes de violino a suavizar as dissonâncias agrestes das minhas memórias na noite do dia em que reencontrei os meus companheiros de Mueda.&lt;br /&gt;- Desculpe furriel… eu fiquei e você avançou sozinho.&lt;br /&gt;Há trinta anos que ninguém me chamava furriel, esse posto inventado por Salazar para não ter que nos pagar o ordenado de Sargento e que este governo despromoveu a Cabo da Armada pela mesma razão. Madrasta pátria esta cujos governantes nunca conseguem estar à altura dos seus soldados!&lt;br /&gt;- Peço-lhe desculpa furriel, eu é que fui culpado por você ter sido ferido.&lt;br /&gt;Quantos anos de falsas memórias? Quantos anos o cérebro organizou as nossas histórias de guerra para suprir a culpa, para nos fazer aceitar a culpa, ou para nos castigar por uma falsa culpa?&lt;br /&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_HoddYLLd75o/RkHn4I2sEKI/AAAAAAAAAEU/dfqolmaaC7o/s1600-h/2007-03-28+-+Encontro+em+Paredes.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5062582407776702626" style="CURSOR: hand" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_HoddYLLd75o/RkHn4I2sEKI/AAAAAAAAAEU/dfqolmaaC7o/s400/2007-03-28+-+Encontro+em+Paredes.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;em&gt;Encontro da CART 3503 em Pardes no dia 28-04-2007&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;E o que é que faz com que mais de cinquenta homens se reúnam todos os anos com o aparente álibi de jantarem em conjunto e de corrigirem as memórias uns dos outros? Só sei que não vale a pena tentar explicar, porque para perceber isso é preciso saber o que é caminhar ao lado de alguém cuja vida depende de nós; alguém de quem depende a nossa própria vida; alguém a quem desejamos ardentemente que não leve um tiro ou pise uma mina, porque ficaremos irremediavelmente sós perante a morte. Ficamos tão sós quando alguém é abatido que nos sentimos culpados, porque era nossa obrigação defendê-lo; porque ele foi abatido a defender-nos a nós.&lt;br /&gt;Ficamos tão sós que carregaremos essa culpa durante trinta anos… "Peço-lhe desculpa furriel…" E no entanto a única culpa foi o ter ficado vivo e incólume como era sua obrigação, para poder defender-me quando eu tombei.&lt;br /&gt;Que fria que está a noite. Será que é porque o Inverno não quer ir embora este ano ou será que não sinto o calor que faz, porque me gela ainda a dor de estar ferido? Uma dor que vem às vezes. Não sei de donde vem. Talvez do lugar para onde foram os nossos sonhos quando morreram. Talvez do sítio de onde vieram as nossas falsas memórias.&lt;br /&gt;Encontro da CART 3503 em Paredes em 28 de AbrilÁs vezes à noite, quando um pássaro sem nome crocita saudades para os lados do Espírito Santo e um helicóptero que vai para os HUC nos traz ecos de África, às vezes quando vamos visitar o sótão da nossa memória onde guardamos as coisas do passado a que já não dávamos valor; às vezes quando vamos ao encontro daqueles que connosco pisaram as picadas minadas de África; às vezes quando é Abril e faz anos que a guerra acabou; às vezes quando nos dizem: "Não te via há tanto tempo. Que fazes? Imaginava-te pintor"; às vezes…&lt;br /&gt;Às vezes, por breves instantes, os sonhos esquecidos regressam, ao mesmo tempo que sentimos o abraço apertado de um velho amigo ou a falsa memória de culpa de um irmão de armas.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5691625468132851547-8424687876187201413?l=episodiosdopos-guerra.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://episodiosdopos-guerra.blogspot.com/feeds/8424687876187201413/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5691625468132851547&amp;postID=8424687876187201413' title='2 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5691625468132851547/posts/default/8424687876187201413'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5691625468132851547/posts/default/8424687876187201413'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://episodiosdopos-guerra.blogspot.com/2007/06/encontro-de-veteranos.html' title='Encontro de Veteranos'/><author><name>Manuel Bastos</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08931715969785497183</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/_HoddYLLd75o/TGVwNwmn4aI/AAAAAAAAAiU/KQqkluN1xbw/S220/PhotoContact3.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_HoddYLLd75o/RkHn4I2sEKI/AAAAAAAAAEU/dfqolmaaC7o/s72-c/2007-03-28+-+Encontro+em+Paredes.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5691625468132851547.post-5539373063113051316</id><published>2007-04-19T04:12:00.001-07:00</published><updated>2008-12-10T07:15:16.913-08:00</updated><title type='text'>A Doce Ocarina do Vento Norte</title><content type='html'>Helena sentou-se no murete que divide o cemitério novo do cemitério velho. Chegou tarde, porque teve que assistir a uma reunião e a esta hora já só uma velha ali estava, que varria as folhas dos ciprestes para um lado enquanto o vento as espalhava de novo para o outro.&lt;br /&gt;Inicia o ritual do cigarro, como se cada dedo tivesse um pequeno cérebro autónomo, de modo a levar a cabo aqueles gestos sempre iguais, pela mesma ordem e sem lhes prestar atenção. Primeiro a mão que abre a bolsa de couro e que gatinha por entre os incontáveis objectos que parecem estar ali só para ser mais difícil encontrar alguma coisa; depois as longas unhas a extraírem o cigarro pelo filtro, o qual salta agilmente para a sua posição entre o indicador e o médio, assim que a mão sai da bolsa e corre o fecho, com o polegar e o anelar; ao mesmo tempo os olhos pousam com outro ritmo, com outro vagar, como se não fossem da mesma pessoa que as mãos, em cada pedra de mármore, em cada lápide. A mão deixou o cigarro entre os lábios e já está a procurar o isqueiro por entre o quebra-cabeças do interior do saco; aqui ela repara no contraste que fazem as duas partes do cemitério: a parte velha com as lápides de calcário escurecido pelo tempo, com formas que vão do gótico ao romântico e uma pelo menos, num estilo híbrido de manuelino e arte-nova; e a parte recente do cemitério que exibe a exuberância dos mármores e dos granitos polidos e multicolores, com ornamentos dourados, ao gosto kitsch.&lt;br /&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_HoddYLLd75o/RidPEPsKYRI/AAAAAAAAAD8/bdFsfRUyo18/s1600-h/anjo.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5055096041096503570" style="CURSOR: hand" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_HoddYLLd75o/RidPEPsKYRI/AAAAAAAAAD8/bdFsfRUyo18/s400/anjo.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;O cigarro já esbraseia ao canto da boca e o isqueiro já esta arrumado. Agora Helena pousa os olhos numa lápide em especial, de granito negro, como se tudo o que fizera até aqui tivesse sido uma encenação ou uma preparação para que o seu olhar não se viesse a distrair com mais nada.&lt;br /&gt;Daqui não se pode ver a foto no medalhão oval, de um rosto masculino, numa coloração errada de excesso de magenta, olhando de frente, com um semblante distorcido de quem tentou um sorriso e quase lhe saiu um esgar de dor; nem o livro em mármore branco com o crachá de uma unidade militar e a frase "Eterna audade" a faltar-lhe o "s" e a inspiração.&lt;br /&gt;A velha passa por ela sempre olhando o chão e murmura um "bô tarde stora" como se estivesse a pedir desculpa por estar ali sem ser convidada.&lt;br /&gt;Helena acompanha-a com o olhar até ao portão e então sente que está só no cemitério. Levanta-se e encaminha-se para a sepultura de granito negro. Agora vê bem a foto com excesso de magenta, olhando para ela de frente e o livro com o crachá. "Eterna audade dos companheiros de Mueda."&lt;br /&gt;Quando o pai morreu Helena sentiu alívio. Mais do que uma vez reparou que a mãe remoçara como se tivesse vivido muito tempo na sombra e de repente tivesse ficado iluminada. E as amigas da mãe, que em vez dos pêsames lhe diziam "Acabou-se a tua penitência".&lt;br /&gt;Se não tivesse sido a isenção de propinas por ser filha de um deficiente militar, Helena dificilmente teria conseguido licenciar-se e a sua gratidão de filha resumira-se a essa constatação, até decidir transformar a campa rasa do pai naquele belo túmulo de granito negro.&lt;br /&gt;A foto com magenta a mais olha-a com aquele sorriso dorido e Helena sente uma enorme pena de não ter sofrido uma única vez com a morte do pai. Queria ter chorado, queria ter passado noites em claro com saudades dele, mas a verdade é que Helena já era órfã antes do pai morrer. Um dia ouviu a mãe dizer entre dentes "Estou casada com um cadáver".&lt;br /&gt;Aquela foi a única foto recente do pai que Helena encontrara. Havia só aquele álbum que ele folheava com desvelo, repleto de fotos da guerra em África. Como era possível que o pai sentisse saudades de um tempo de horrores que lhe roubara tudo? Que procurava ele naquele álbum em que aparecia sempre com um sorriso num rosto de criança? Talvez o rosto de criança, talvez o sorriso. Depois as fotos rareavam e o sorriso nunca mais aparecia. Que terá acontecido para o seu pai se ter transformado naquele homem apagado e taciturno que parecia consumir toda a luz à sua volta, até que um dia se consumiu a si próprio totalmente, não tendo ficado nada a não ser a depressão no sofá onde ele se costumava sentar.&lt;br /&gt;A sua mão esguia levou maquinalmente o cigarro à boca mais uma vez, naquele gesto autónomo, como se a mão não estivesse ligada ao sistema nervoso central e depois num movimento lento e planante, esticando o indicador, roçou ao de leve no medalhão oval. Se não fosse dar-se o caso de o dia ir avançado e o vento norte imitar uma ocarina nos ciprestes, Helena diria que o arrepio que sentiu pelo corpo todo era de ternura.&lt;br /&gt;Às vezes é preciso fazermos com os afectos o que os camponeses fazem com as plantas: é preciso plantar os afectos; é preciso plantar, regar, podar, para depois colher; ou simplesmente transformar uma campa rasa num túmulo do mais belo granito que se puder encontrar.&lt;br /&gt;Deu um passo atrás para ter uma visão mais abrangente da campa e pela primeira vez sentiu saudade do pai. Uma dor constritiva como uma angina de peito provocou-lhe um soluço e os olhos humedeceram de ternura, ou então era o frio, frio vento norte que ainda se ouvia cantando docemente por entre os ciprestes.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5691625468132851547-5539373063113051316?l=episodiosdopos-guerra.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://episodiosdopos-guerra.blogspot.com/feeds/5539373063113051316/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5691625468132851547&amp;postID=5539373063113051316' title='2 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5691625468132851547/posts/default/5539373063113051316'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5691625468132851547/posts/default/5539373063113051316'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://episodiosdopos-guerra.blogspot.com/2007/04/doce-ocarina-do-vento-norte.html' title='A Doce Ocarina do Vento Norte'/><author><name>Manuel Bastos</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08931715969785497183</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/_HoddYLLd75o/TGVwNwmn4aI/AAAAAAAAAiU/KQqkluN1xbw/S220/PhotoContact3.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_HoddYLLd75o/RidPEPsKYRI/AAAAAAAAAD8/bdFsfRUyo18/s72-c/anjo.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>2</thr:total></entry></feed>
